
A Meta teve uma recepção calorosa do mercado após divulgar seus resultados financeiros do quarto trimestre de 2025. As ações da companhia registraram uma alta expressiva de 10,1% nesta quinta-feira (29), alcançando o valor de US$ 729,70.
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O movimento tornou a empresa de Mark Zuckerberg a sexta mais valiosa do mundo, com um valor de mercado de US$ 1,85 trilhão, logo atrás da Amazon.
O otimismo dos investidores contrasta com um cenário que, historicamente, geraria pânico. A empresa anunciou que pretende gastar entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões em infraestrutura (Capex) em 2026 para desenvolver o que chama de “Superinteligência” — um nível de IA hipotético que supera a inteligência humana em praticamente todas as áreas criativas e técnicas.
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O valor é um salto gigantesco em comparação aos US$ 72 bilhões de 2025.
Normalmente, Wall Street pune severamente empresas que anunciam aumentos drásticos de despesas sem retorno garantido no curto prazo. A própria Meta viveu isso em 2022, quando as ações despencaram cerca de 70% após Zuckerberg anunciar o pivô para o Metaverso sem mostrar como isso geraria dinheiro.
Desta vez, o mercado aplaudiu. A diferença é que a “máquina de dinheiro” da empresa — a publicidade — nunca foi tão eficiente, graças à aplicação prática da inteligência artificial (IA).
O Canaltech explica abaixo como a própria IA ajuda a Meta a pagar a conta que o desenvolvimento da IA gera:
- A IA invisível que paga a conta
- Corrida pela “Superinteligência”
- O “buraco negro” do Reality Labs vs. Óculos Inteligentes
- O que muda para o usuário em 2026
A IA invisível que paga a conta
Os números do último trimestre mostram um negócio central extremamente saudável. A Meta reportou uma receita de US$ 59,9 bilhões, um crescimento de 24% ano contra ano. O lucro líquido ficou em US$ 22,8 bilhões, uma alta de 9%.
Mais do que o volume, a eficiência impressiona: as impressões de anúncios entregues nos aplicativos da família (Instagram, Facebook) cresceram 18%, enquanto o preço médio por anúncio subiu 6%.
Para o professor do Insper e consultor de IA Pedro Burgos, o mercado não está precificando a promessa futurista da “superinteligência” como produto, mas sim a aplicação prática que já aparece no balanço financeiro.
“A gente costuma pensar em IA como modelos de linguagem tipo ChatGPT. E, quando você olha para o produto da Meta voltado ao público, o Meta AI, ele é bem menos impressionante”, explica Burgos. “Mas, para a Meta, ‘investimento em IA’ é também investimento em sistemas internos diretamente ligados a anúncio e performance”.
Burgos destaca o “Meta Generative Ads Model”, um modelo treinado de forma semelhante aos LLMs (Large Language Models), mas focado exclusivamente em prever e otimizar a performance de publicidade.
“Isso ajuda a melhorar o direcionamento (targeting): expor o anúncio para as pessoas certas, nas situações certas, com melhor retorno. Então, o que o mercado está vendo é que o investimento em IA da Meta está se pagando no business tradicional”, analisa o professor. “Quanto mais eles investem em IA, mais eles colhem frutos em anúncios — melhores algoritmos, melhor eficiência e, no fim, mais receita”.
Essa eficiência cria um “colchão” financeiro para as novas apostas de Zuckerberg.
“Por muito tempo a Meta teve resultados tão bons que o Zuckerberg conseguiu financiar uma ‘aventura’ pessoal — o metaverso. Isso não gerou frutos como prometido. Agora existe uma nova ‘aventura’, a narrativa de superinteligência, e o mercado tolera essa aposta porque há um subproduto claro do investimento em IA: melhora do core, principalmente anúncios e recomendação”, conclui Burgos.

Corrida pela “Superinteligência”
Mark Zuckerberg justificou o aumento nos gastos para 2026 como essencial para o “Meta Superintelligence Labs”. Apesar do termo soar como ficção científica, ele descreve uma necessidade industrial de sobrevivência.
“Quando a Meta fala em ‘superinteligência’, ela não está prometendo, hoje, uma IA quase onisciente no estilo ficção científica”, afirma o diretor dos cursos de graduação on-line da FIAP, John Paul Hempel Lima. “Em linguagem de mercado, isso significa investir pesadamente em modelos de IA de fronteira (mais poderosos, multimodais), suportados por uma infraestrutura massiva de data centers, chips e energia”.
O investimento de até US$ 135 bilhões é uma estratégia defensiva para não ser engolida por concorrentes como Google e OpenAI na corrida computacional.
O “buraco negro” do Reality Labs vs. Óculos Inteligentes
Enquanto a publicidade brilha, a divisão de realidade virtual e aumentada, Reality Labs, continua operando no vermelho. A unidade registrou um prejuízo operacional de US$ 6,2 bilhões apenas no quarto trimestre e um acumulado de US$ 19,1 bilhões em perdas durante todo o ano de 2025.
Apesar do prejuízo, Zuckerberg destacou que as vendas dos óculos inteligentes da Meta triplicaram no último ano. Para o professor de Marketing Digital da ESPM, Bruno Peres, o mercado aceita essas perdas porque enxerga uma disputa pelo “próximo sistema operacional da vida cotidiana”.
“Se a IA vira uma camada ubíqua de assistência, o valor não está só no hardware, ele está no controle do ponto de contato, nos fluxos de atenção e nos dados contextuais”, afirma Peres.

O que muda para o usuário em 2026
Para pagar a conta da infraestrutura de IA, a Meta deve intensificar a monetização de suas plataformas em 2026. Zuckerberg já prometeu “ferramentas de compras agênticas”, onde a IA poderá encontrar e comprar produtos autonomamente para o usuário , e assistentes que entendem contexto pessoal.
Do lado do consumidor, isso significa o fim de algumas gratuidades e o aumento da exposição à publicidade para financiar a infraestrutura:
- Anúncios no Threads: a rede social começou a exibir anúncios globalmente, aproveitando o histórico de dados do Instagram para segmentação precisa desde o primeiro dia;
- Planos Pagos: a Meta prepara assinaturas “Premium” para WhatsApp, Instagram e Facebook. Diferente do selo de verificação atual, esses planos devem oferecer recursos funcionais extras, como ferramentas de produtividade e criatividade.
Segundo Burgos, a Meta está “apertando o botão de monetização” em suas redes sociais porque percebe que pode aumentar a eficiência sem perder usuários no curto prazo.
Já Hempel Lima vê uma convergência de produtos: “O movimento, no fundo, é integrar IA a todo o ecossistema, tornando-a o ‘sistema operacional’ invisível que sustenta anúncios, assinaturas e novos dispositivos”.
No curto prazo, a Meta segue como uma empresa de publicidade extremamente rentável financiando sua própria transformação. “Não apostaria que a ‘superinteligência’ se materialize como um marco inequívoco para o público geral [em 2026]”, conclui Peres. “Mas a Meta pode sair na frente na era dos wearables”.
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