Afinal, o que está acontecendo com a Ubisoft? Entenda a crise

Tecnologia

A Ubisoft é uma das maiores produtoras de toda a indústria de jogos, com franquias de sucesso e um “pedigree” que, um dia, significou qualidade e experiências divertidas. Porém, uma crise atingiu a companhia nos últimos 10 anos e tudo começou a desabar sob a base que construíram.

O lar de Assassin’s Creed, Far Cry, Just Dance, Rayman e dos aclamados títulos escritos por Tom Clancy (Rainbow Six, Splinter Cell, Ghost Recon e outros) era sinônimo de lançamentos grandiosos. Até experiências menores, como Child of Light e Valiant Hearts, tinham um grande destaque ao seu redor.

No entanto, chegamos em 2026 e a Ubisoft não poderia estar em um momento pior. Ações em queda livre, reestruturação completa, adiamento e cancelamento de dezenas de projetos e decisões corporativas questionáveis afundaram o estúdio francês em uma verdadeira tragédia “ao vivo”.


Entre no Canal do WhatsApp do Canaltech e fique por dentro das últimas notícias sobre tecnologia, lançamentos, dicas e tutoriais incríveis.

Porém, o que realmente aconteceu com a gigante dos games? Nós do Canaltech contamos o que fez ela chegar a este ponto e quais serão os seus próximos passos dentro deste mercado. Será que ela vai sobreviver? Confira:

Imagem de Assassin's Creed
A francesa era sinônimo de qualidade em várias frentes diferentes (Imagem: Divulgação/Ubisoft)

Um curto flashback da Ubisoft

Nos anos 2000, a Ubisoft brilhava intensamente. A ascensão de títulos como Assassin’s Creed e Just Dance colocou ela nos holofotes e fez seu nome ser reconhecido globalmente. Seja em diversão, qualidade narrativa ou gráficos de ponta, ela estava à frente do mercado em vários quesitos.

E isso preocupou bastante a concorrência. Queria jogo de espionagem? Eles tinham Splinter Cell nas mãos. Aventura e ação? Assassin’s Creed e Prince of Persia carregaram tudo isso nas costas naquela década. Games para toda a família curtir? Just Dance era indiscutivelmente uma das melhores opções. 

A EA, que tinha quase 20% das ações da companhia na época, viu o seu investimento virar concorrência. As demais, temiam por uma presença maior da produtora no mercado. Se ela era “insignificante” nos anos 1980 e 1990, nos anos 2000 e início da década de 2010 tinha se tornado um colosso. 

Porém, o mercado de jogos eletrônicos não traz apenas ascensões. Também apresenta quedas. E a da Ubisoft começou no ano de 2014. Dois lançamentos botaram tudo a perder dentro de sua trajetória de sucesso: Watch_Dogs e Assassin’s Creed Unity.

Watch_Dogs era um projeto que prometia bater de frente com GTA V. A premissa envolvia uma jornada de vingança, um mundo aberto vivo, gráficos impressionantes e um alto nível de interação — visto que o protagonista da trama era um hacker. No entanto, ele não atendeu estas expectativas.

No mesmo ano, Assassin’s Creed Unity foi lançado com diversos problemas. Se até Black Flag eles tinham uma franquia “quase” irretocável, ter um título repleto de bugs, quedas de FPS, crashes e uma péssima otimização na versão de PCs tornou toda a situação em um meme que perdurou por anos.

Imagem de Assassin's Creed Unity
O lançamento de Assassin’s Creed Unity tornou o nome da produtora em uma piada (Imagem: Divulgação/Ubisoft)

Após virarem piada pública — que foi reforçada pelos títulos seguintes e até pela adaptação cinematográfica da franquia, que estreou em 2016 com várias críticas negativas, o que expandiu a compreensão de que havia muitas decisões erradas ao redor da Ubisoft. 

E não era apenas uma: a chegada de The Crew como uma experiência exclusiva para o público online (e sua remoção completa recentemente), os dois soft reboot que Assassin’s Creed passou, o sumiço repentino de Rayman, o atraso em jogos como Skull & Bones e Beyond Good & Evil 2 — que sequer foi lançado — e outros provocaram reações negativas nos fãs.

A queda da Ubisoft

Ainda que a 2ª metade da década de 2010 não tenha sido agradável para a Ubisoft, ela se manteve firme e forte. No entanto, os anos 2020 causaram um impacto ainda maior na produtora. Quando o público somou todos estes problemas, a conclusão foi óbvia: os títulos deles já não valiam tanto a pena. 

Imagem de Watch Dogs Legion
Nos anos 2020, o público chegou a conclusão que os jogos não valiam as expectativas no lançamento (Imagem: Divulgação/Ubisoft)

Durante e depois da pandemia vimos diversos fracassos comerciais, games que não atingiram um número satisfatório de vendas. Watch Dogs Legion e Prince of Persia: The Lost Crown, por exemplo, causaram um verdadeiro rombo onde devia existir lucros. 

O mesmo vale para jogos baseados em grandes franquias, como é o caso de Avatar: Frontiers of Pandora e Star Wars Outlaws. Vale notar que fracasso comercial não significa que a experiência é ruim, mas sim que não trouxe o retorno financeiro esperado. 

As pessoas apenas não queriam comprá-los ou, no máximo, esperavam por uma boa promoção para fazer o investimento valer a pena. Todos sabemos o quanto os títulos ficaram caros com o passar do tempo e quem queria arriscar R$ 300 ou R$ 400 com o histórico que ela conquistou?

O estúdio até tentou entrar no mercado de Games-as-a-Service (GaaS), para surfar na onda do cenário competitivo ao lado de outro grande sucesso que está sob suas asas: Rainbow Six Siege. Porém, XDefiant ficou de pé por apenas 1 ano e teve seus servidores encerrados em 2025

Nem tudo foi uma tragédia, já que Assassin’s Creed Shadows e The Crew Motorfest tiveram métricas boas para a Ubisoft. No entanto, não foi o suficiente para trazer uma nova ascensão à produtora. O buraco já estava pronto para receber a companhia e as coisas estavam prestes a piorar.

A crise

Com o adiamento de diversos jogos, cancelamento de projetos, investimentos em blockchain e em IA, estava claro que o estúdio já estava perdido em seu caminho. Não é à toa que os acionistas até pediram a venda da francesa ou a saída de Yves Guillemot da liderança, o que se tornou uma grande polêmica.

Imagem de Ubisoft Quartz
A francesa tentou implementar blockchain em seus jogos, mas recebeu diversas críticas negativas (Imagem: Montagem/Canaltech)

Em comum acordo, decidiram vender aproximadamente 26% de suas ações para a chinesa Tencent. Desta forma, a corporação oriental passaria a ter controle total da Vantage Studios e de franquias como Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six — a “tríade de ouro” da produtora. 

Isso causou a saída de diversos profissionais que trabalhavam nestes títulos, como é o caso do líder da série de jogos dos assassinos, Marc-Alexis Côté. Divergências criativas, falta de comunicação e demissões em massa também ocorreram e mostraram o caos completo que eles vivenciavam. 

No meio dessa bagunça, ex-desenvolvedores da Ubisoft brilhavam em diversos outros projetos independentes. Dispatch e Clair Obscur: Expedition 33 — Jogo do Ano da TGA 2025 e o game mais premiado de todo o mercado — mostraram aos acionistas e ao público tudo o que perderam ao longo dos últimos anos. 

Imagem de Clair Obscur: Expedition 33
O jogo Clair Obscur: Expedition 33 foi produzido por ex-devs da Ubisoft (Imagem: Divulgação/Sandfall Interactive)

Para reverter a sua situação, eles decidiram então reiniciar todas as suas atividades do zero. Ou quase isso. Uma reestruturação completa redefiniu o papel de cada um dos seus estúdios, franquias e quais seriam os focos para o futuro. Claro, isso envolve também mais investimentos em IA e demissões.

Isso criou ainda mais caos, já que jogos como Prince of Persia: Sands of Time Remake foram cancelados ao lado de outros projetos que produziam, assim como adiaram vários outros. Estava nítido que eles precisavam de um movimento para voltar a se estabelecer, mas nem nisso acertaram em cheio.

O resultado pode ser visto nas suas ações. O valor de mercado da Ubisoft só esteve tão baixo como hoje em 2004 — antes de seus grandes sucessos e dos games que elevaram eles ao patamar que alcançaram nos últimos 22 anos. 

E para onde a Ubisoft vai agora?

Com a queda abrupta, não será estranho que a companhia francesa se movimente para mais demissões e o cancelamento de outros projetos. Com a equipe enxuta, eles possivelmente vão focar em franquias mais bem-estabelecidas, como ocorreu com a Activision e outras produtoras. 

É possível que se recuperem e voltem para uma posição confortável? Sim, mas neste mercado isso é muito difícil. Desenvolver jogos consome um tempo ainda maior, envolve mais custos e nem sempre o estúdio vai querer assumir os riscos que isso traz. 

Ainda que haja espaço para a esperança, este tipo de crise não se vence em 1 ou 2 anos e ainda veremos mais impactos que ela causará à Ubisoft. O principal eles fizeram: se reorganizaram, criaram um novo roadmap e estão dispostos a tentar mais uma vez. Se isso trará resultados ou não, é incerto.

Leia também no Canaltech:

Leia a matéria no Canaltech.