
Resumo
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Expressão “fadiga de IA” descreve incômodo de usuários com onipresença de ferramentas de IA e, consequentemente, com conteúdos resultantes de baixa qualidade;
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Protestos como o termo “Microslop” e baixa adesão aos AI PCs indicam que grande parte das ferramentas de IA ainda não convenceram os usuários;
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Com efeito, surgem ferramentas “anti-IA”, a exemplo de scripts que ocultam recursos de IA de navegadores e sistemas operacionais.
Não aguenta mais ouvir falar em inteligência artificial? Você não está só. Hoje, esse tipo de tecnologia parece estar em tudo, mesmo naquilo em que nós, meros usuários, não fazemos questão. O resultado é uma sensação de incômodo com relação ao conceito que já tem até nome: “fadiga de IA”.
Para muita gente, o problema gira em torno de um conceito mais específico: o de inteligência artificial generativa, que é aquela que gera conteúdo em texto, imagem ou vídeo a partir de um conjunto prévio de dados ou instruções (prompts).
Exemplos notáveis de ferramentas de IA generativa são o ChatGPT e o Gemini. Mas esse tipo de tecnologia tornou-se tão tecnicamente acessível que, quando nos demos conta, recursos do tipo já apareciam em editores de texto, serviços de mensagens, ambientes de programação, aplicativos de redes sociais e por aí vai.
Tão grave ou pior que tamanha onipresença é o “AI slop”, termo que faz referência à onda de conteúdo produzido com auxílio da inteligência artificial com qualidade questionável. São memes para viralizar nas redes sociais, textos lapidados para causarem impacto no LinkedIn, vídeos falsos para constranger celebridades e assim por diante.
Para completar, estamos assistindo a uma proliferação de agentes de IA que se propõem a fazer determinadas tarefas no seu lugar, cuspindo resultados que nem sempre são o que você espera ou precisa.
Tudo isso gera um excesso de informação ou uma sensação de falta de controle que é difícil de digerir. Cinco sintomas dessa indigestão surgiram recentemente, como mostra a lista a seguir.
1. Movimento “Microslop” contra a Microsoft
Esse chega a ser engraçado. No fim de 2025, Satya Nadella, CEO da Microsoft, publicou um texto em seu blog em que pede para as pessoas deixarem de ver o conteúdo produzido pela IA como “slop”, termo que, aqui, pode ser traduzido como “lixo”. A reação pública foi a palavra “Microslop”, um trocadilho com o nome da empresa que ganhou as redes sociais.
Em linhas gerais, as pessoas que fizeram parte desse protesto, por assim dizer, estavam irritadas com o fato de a Microsoft “inchar” seus produtos com recursos de IA pouco relevantes, principalmente no Windows 11. Um exemplo recente: uma função que usa IA para criar livros de colorir no Paint.

2. Dell admite que consumidores se interessam pouco por PCs com IA
Você acha importante que o seu próximo computador tenha hardware para executar tarefas de IA localmente? Por mais que fabricantes de computadores e a Microsoft tentem promover as vantagens dos chamados AI PCs, atualmente, poucos consumidores se interessam por essas máquinas.
Não é só porque elas tendem a ser mais caras. Prova disso é que, neste início de 2026, a própria Dell admitiu que a IA ainda não entrega o prometido em PCs.
Em um ato de franqueza pouco comum na indústria, Jeff Clarke, vice-presidente e COO da companhia, declarou que “a promessa não cumprida da IA e a expectativa de que a IA irá aumentar a demanda por parte dos consumidores finais” foram aspectos desafiadores para o setor em 2025 (e continuarão sendo em 2026, pelo visto).

3. Em defesa de um “estilo de vida analógico”
Além de celulares e PCs, recursos de IA já aparecem em TVs, painéis de carro, geladeiras, alto-falantes e assim por diante. Como reação não somente à “invasão” da IA, mas a um excesso de dispositivos tecnológicos, há um movimento crescente de pessoas que defendem um estilo de vida mais analógico, tanto quanto possível.
Na prática, isso significa fazer exercícios físicos sem dispositivos vestíveis por perto, ler revistas ou livros físicos (em papel), buscar hobbies manuais (como tricô ou artesanato) ou até tirar fotos com uma câmera analógica (com filme).
4. DuckDuckGo: 90% dos usuários preferem buscas sem IA
A DuckDuckGo, mais conhecida pelo mecanismo de busca que leva o seu nome, abriu uma enquete online em 19 de janeiro perguntando se os usuários preferem realizar buscas na web auxiliadas por IA ou fazer buscas tradicionais (sem IA generativa).
A enquete foi finalizada em 26 de janeiro mostrando que mais de 175.000 pessoas haviam participado, com 90% declarando preferir buscas tradicionais. Esse pode ser um sinal de que grande parte dos usuários não está lá muito empolgada com o Modo IA das buscas do Google, por exemplo.

5. Serviços “anti-IA” não param de surgir
À medida que mais pessoas sentem a tal fadiga de IA, surgem ferramentas que prometem te deixar o mais longe possível do conceito. Começou de forma sutil. Por exemplo, a DuckDuckGo tem uma versão com recursos de IA nas buscas, bem como outra sem integração com inteligência artificial generativa.
Mas também há ferramentas “anti-IA” que são ainda mais diretas nessa proposta. Eis alguns exemplos:
- Just the Browser: trata-se de um script capaz de remover recursos de IA de navegadores como Chrome, Edge e Firefox;
- RemoveWindowsAI: eis outro script aberto, mas que se propõe a remover o Copilot, o Recall e outros recursos baseados em IA do Windows 11;
- Hide Gemini and Google AI: essa é uma extensão para Chrome que oculta o Gemini e outros recursos de IA do Google no buscador, Gmail, Drive e demais serviços; também há uma versão para Firefox;
- udm14: para quem prefere usar o Google “antigo”, sem resultados incrementados com IA, é possível acrescentar o parâmetro “&udm=14” ao endereço da busca, ou então, fazer a pesquisa a partir do site udm14 para automatizar o truque (sabe-se lá até quando isso irá funcionar).

E agora?
É cedo para sabermos se esses movimentos são reflexos de uma bolha prestes a estourar ou se, ao menos, farão os grandes nomes do setor tirarem o pé do acelerador quando o assunto é IA (algo que eu considero improvável, para ser honesto).
O que está claro é que a fadiga de IA tende a ser muito mais do que um mero aborrecimento. Já há indícios de que esse fenômeno, por assim dizer, tem feito profissionais se sentirem sobrecarregados por conta da pressão para dominar ferramentas de inteligência artificial.
Em linhas mais gerais, também há sinais de que cada vez mais pessoas sentem-se estressadas ou deprimidas em razão do excesso de informação propiciado por IAs generativas.
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