IA pode levar funcionários ao burnout por ritmo intenso, diz estudo

Tecnologia
Resumo
  • A IA generativa levou a sobrecarga de trabalho, com funcionários assumindo tarefas de outros e realizando múltiplos projetos simultaneamente.
  • A facilidade de iniciar tarefas com IA reduziu pausas e aumentou a carga cognitiva, resultando em exaustão e burnout.
  • Pesquisadoras sugerem práticas para mitigar o problema, como pausas regulares e organização das tarefas.

Trabalhadores que passaram a usar ferramentas de inteligência artificial generativa no emprego puxaram para si responsabilidades de outros cargos, começaram a realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo e fizeram menos pausas ao longo do dia.

Com isso, os possíveis ganhos de produtividade vieram acompanhados de um cenário de sobrecarga mental e exaustão.

Essas são descobertas preliminares de um estudo em curso, realizado pelas pesquisadoras Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye. Elas trabalham na Escola de Negócios Haas, da Universidade da Califórnia em Berkeley.

O trabalho acompanha, desde abril de 2025, os efeitos da IA generativa em uma empresa de tecnologia com sede nos Estados Unidos, com cerca de 200 funcionários. Na segunda-feira (09/02), resultados preliminares foram publicados na Harvard Business Review.

A companhia em questão não pediu para seus funcionários usarem IA, nem estabeleceu novas metas. Mesmo assim, por iniciativa própria, eles passaram a recorrer às ferramentas — e isso intensificou o trabalho de três formas, de acordo com as autoras.

IA permite fazer o trabalho de colegas

Uma é a chamada expansão de tarefas — os trabalhadores passaram a usar IA para realizar tarefas que não eram de sua alçada, já que, com a tecnologia, bastava escrever um prompt.

No caso de estudo, gerentes de projeto passaram a escrever código, pesquisadores assumiram tarefas de engenharia, e indivíduos de todas as áreas passaram a tentar fazer trabalhos que, em outros tempos, seriam delegados a outras pessoas, terceirizados, adiados ou simplesmente evitados.

Isso, porém, teve consequências negativas. Engenheiros, por exemplo, precisaram passar mais tempo revisando e corrigindo trabalhos de colegas de outras áreas que tinham sido gerados por IA, chegando ao ponto de dar instruções sobre como fazer vibe coding corretamente.

“Só mais um promptzinho”

As autoras também notaram que a IA deixou mais tênue a linha que divide o trabalho de pausas ou mesmo da vida pessoal. Os trabalhadores passaram a realizar pequenas tarefas com ajuda de IA durante o almoço, em reuniões ou enquanto esperam um arquivo ser enviado, por exemplo.

As pesquisadoras atribuem isso à redução da fricção para iniciar tarefas — basta escrever um prompt para começar um trabalho. Além disso, os chatbots causam a sensação de estar apenas conversando com um colega.

Alguns funcionários entrevistados disseram que passaram a mandar “um último prompt rapidinho” antes de sair da mesa; assim, a IA poderia ir trabalhando até a hora de voltar. Uma consequência desse comportamento foi que as pausas ao longo do dia não causavam a mesma sensação de recuperar a energia.

Muitas tarefas ao mesmo tempo

Os funcionários também passaram a tocar várias tarefas de uma vez só com a ajuda da IA, que passou a ser vista como uma parceira para se encarregar do trabalho.

Algumas pessoas escreviam código manualmente enquanto deixavam a IA fazendo uma versão alternativa. Outros colocavam vários agentes funcionando ao mesmo tempo. Teve até quem ressuscitasse tarefas antigas que haviam sido adiadas porque sentia que, agora, seria possível deixar a IA trabalhando nisso em segundo plano.

Como consequência, os funcionários entraram em um estado de mudança constante de atenção, checando respostas enviadas pela IA o tempo todo. A carga cognitiva ficou mais pesada, segundo as pesquisadoras. Outro problema é que, mesmo sem um aumento explícito das demandas, houve uma expectativa de que as entregas ficariam mais rápidas, levando a mais pressão sobre os trabalhadores.

Quais foram as consequências da IA?

Nas entrevistas feitas com as pesquisadoras, os trabalhadores disseram que a IA não os fez se sentirem menos ocupados — na verdade, o contrário aconteceu. “Para os trabalhadores, o efeito cumulativo é cansaço, burnout, e uma sensação cada vez maior de que é difícil se distanciar do trabalho”, dizem as autoras.

O problema não é exclusivo dos funcionários, elas argumentam. “Com o tempo, o trabalho excessivo pode prejudicar a avaliação, aumentar a probabilidade de erros e tornar difícil distinguir ganhos genuínos de produtividade de intensidade insustentável”, alertam as pesquisadoras.

A pesquisa repercutiu entre trabalhadores da área. Em seu blog, o desenvolvedor Simon Willison se identificou com os achados: “Frequentemente, eu me pego trabalhando com dois ou três projetos em paralelo. Eu consigo fazer muita coisa, mas depois de uma ou duas horas, minha energia mental do dia parece completamente esgotada”, escreveu.

No fórum Hacker News, há relatos semelhantes. “Eu sinto a mesma coisa. Desde que meu time embarcou na IA para tudo, as expectativas triplicaram, o estresse triplicou e a produtividade deve ter subido só uns 10%”, diz um usuário.

Qual é a solução?

Para evitar problemas desse tipo, as autoras do estudo defendem boas práticas envolvendo inteligência artificial:

  • fazer pausas para reavaliar o trabalho e evitar a sobrecarga;
  • organizar a sequência e as prioridades das tarefas;
  • evitar interrupções, como notificações não urgentes e respostas de prompts de IA;
  • definir um tempo mínimo para cada fase de um projeto;
  • realizar check-ins para que os funcionários possam se conectar uns com os outros.

Com informações do TechCrunch

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