
O cenário de inovação para 2026 nos apresenta um interessante paradoxo. Enquanto o mercado busca maturidade no retorno sobre o investimento (ROI) em Inteligência Artificial, a tecnologia avança para um novo patamar de autonomia. Esta década (2025–2035) representa um ponto de inflexão crítico, onde o tecido da confiança digital está sob tensão devido a uma convergência de pressões: a industrialização da IA para ataques sofisticados, a iminência da computação quântica (“Y2Q”), a expansão da superfície de ataque com a fusão de IoT e Tecnologia Operacional (OT), e uma lacuna persistente de milhões de profissionais de segurança.
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Nesse contexto, estamos na transição da IA Generativa, que cria conteúdo, para a IA Agêntica, que executa ações. Pela primeira vez, o software ganha um nível de autonomia para interagir com sistemas complexos, muitas vezes com mínima supervisão humana. A segurança, portanto, evolui de um modelo de proteção de perímetros para um de governança da confiança, onde o desafio não é apenas proteger sistemas, mas garantir que agentes autônomos operem de forma segura e alinhada aos objetivos do negócio.
Governança da IA Agêntica e fator humano
A pressão por resultados com IA pode levar a um fenômeno conhecido como “Shadow AI”, onde colaboradores, buscando agilidade, recorrem a agentes de IA não homologados. Essa prática, ainda que compreensível do ponto de vista da produtividade, introduz vulnerabilidades significativas. A previsão da Forrester de que uma implementação de IA Agêntica mal gerenciada causará uma violação de dados pública em 2026 serve como um alerta direto sobre a importância da governança, com o principal risco, destacado no OWASP Top 10 para Aplicações Agênticas sendo o ASI01: Sequestro de Objetivo (Agent Goal Hijacking). Essencialmente, trata-se de um atacante manipular as instruções de um agente, levando-o a executar ações maliciosas que parecem legítimas.
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A resposta estratégica é dupla. Primeiramente, é necessária a adoção do princípio de “Mínima Agência” (Least Agency), no qual nenhum agente de IA deve possuir privilégios excessivos e ações de alto impacto exijem aprovação humana (Human-in-the-Loop). De forma complementar, é preciso também evoluir do simples treinamento de conformidade para a Gestão de Risco Humano (GRH), incorporando a segurança na experiência do usuário (UX) para, no lugar de punir ou repreender os colaboradores, ação pouco efetiva e sempre em resposta a práticas problemáticas, “sutilmente direcioná-los” para comportamentos seguros, em um processo de “engenharia social do bem”.
Identidades não-humanas e Arquitetura Zero Trust
Um dos aspectos menos visíveis da nossa infraestrutura é a explosão de identidades não-humanas. Relatórios da CyberArk indicam que, para cada identidade humana, existem até 82 identidades de máquina (chaves de API, bots, agentes de IA). Enquanto humanos são protegidos por múltiplos fatores de autenticação (MFA), máquinas frequentemente dependem de segredos estáticos, dando origem às “Identidades Fantasmas” (Ghost Identities) — credenciais esquecidas que se tornam um ponto cego.
Essa realidade exige uma mudança de filosofia para uma Arquitetura Zero Trust (ZTA), que opera sob o padrão de “nunca confiar, sempre verificar”. A implementação se dá por meio de tecnologias como SASE (Secure Access Service Edge) e Arquiteturas de Malha de Cibersegurança (Cybersecurity Mesh Architectures). Dentro desse modelo, padrões como o SPIFFE (Secure Production Identity Framework for Everyone) são cruciais, permitindo que sistemas provem sua identidade via software e recebam certificados de curtíssima duração, eliminando a dependência de senhas estáticas.
Cripto-Agilidade e a ameaça pós-quântica
Embora a computação quântica funcional ainda não seja uma realidade comercial, a ameaça criptográfica que ela representa já é um fator estratégico. Atores maliciosos operam sob a estratégia “Colete Agora, Decifre Depois” (Harvest Now, Decrypt Later), capturando dados criptografados hoje com a intenção de quebrá-los no futuro. Dados estratégicos com longo ciclo de vida — como propriedades intelectuais, segredos de estado e até prontuários médicos — tornam-se passivos de longo prazo, se protegidos apenas com a criptografia atual.
Com a padronização de novos algoritmos pelo NIST (como FIPS 203/204) e um cronograma que exige a depreciação de algoritmos legados até 2030, 2026 torna-se o ano para iniciar a jornada de modernização. O primeiro passo é um inventário completo dos ativos criptográficos para planejar a migração para a Criptografia Pós-Quântica (CPQ). No CISSA, já estamos pesquisando e desenvolvendo implementações desses novos algoritmos, contribuindo para que a infraestrutura de confiança do Brasil evolua de forma segura e preparando as organizações contra o colapso criptográfico da próxima década.
Construindo resiliência como vantagem competitiva
A principal “concorrência” hoje não são os pares de mercado, mas sim as capacidades em rápida evolução dos adversários e a inércia do status quo. Estamos praticamente em uma “corrida armamentista” contra a IA ofensiva (como WormGPT) e atores patrocinados por estados. Manter defesas legadas e com velocidade humana (antivírus tradicionais, SOCs manuais) acaba sendo a garantia do fracasso e da obsolescência frente a ameaças que, apesar de ainda incipientes, já estão em rápido desenvolvimento, seja de forma intencional, seja como subproduto do avanço natural da tecnologia.
A saída é substituir a detecção reativa por Preempção Preditiva. Isso envolve “AI-SOCs” (Centros de Operações de Segurança baseados em IA), onde a IA lida com 90%+ da triagem e remediação autonomamente. Adotar uma postura proativa move o objetivo organizacional da impossível “invulnerabilidade” para uma resiliência perfeitamente alcançável. Os benefícios são claros, com uma continuidade operacional em um mundo de “Splinternet” (Internet Fragmentada), a viabilidade regulatória diante do “Tsunami Regulatório” (EU NIS2, AI Act, regras da SEC), além da preparação para o futuro (future-proofing), que protege a propriedade intelectual a longo prazo.
A cibersegurança em 2026, e essencialmente para a próxima década, será definida pela nossa capacidade de gerenciar identidade e agência em um mundo autônomo. As organizações que mesclarem com sucesso a estratégia humana com a velocidade das máquinas definirão o mercado, enquanto aquelas que dependem de posturas legadas se tornarão passivos na cadeia de suprimentos global.
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