Cadê as baterias de smartphone que duram muitos dias? Tudo evolui, menos isso

Tecnologia
Resumo
  • A autonomia dos smartphones é um dos problemas mais antigos dos consumidores.
  • Baterias de silício-carbono aumentam a capacidade em 20% a 30%, mas têm vida útil menor, com cerca de 1.500 ciclos de carga.
  • Fabricantes chinesas como Xiaomi, Realme, Honor e Oppo investem nessa tecnologia, enquanto Apple e Samsung priorizam controle de energia.

Todo mundo quer celulares com baterias que durem mais. Essa é uma das queixas mais antigas dos consumidores — e também uma das mais negligenciadas. Nos últimos anos, os smartphones ficaram mais rápidos, ganharam telas maiores e mais brilhantes, câmeras mais sofisticadas e (muitas) funções de inteligência artificial. A autonomia, porém, continua praticamente no mesmo lugar: para o uso intenso, um dia longe da tomada ainda é o padrão.

Esse descompasso chama atenção porque não faltam inovações no restante do aparelho. A solução que o mercado passou a oferecer foi o carregamento rápido: em vez de smartphones que duram mais, surgiram aparelhos que carregam em menos tempo. Potências de 80 W, 100 W e 120 W viraram argumento de venda.

Mas algumas fabricantes chinesas voltaram a cutucar essa ferida. A Realme anunciou o P4 Power, com bateria de 10.001 mAh e promessa de até três dias longe da tomada. A Honor revelou o Power 2, com 10.080 mAh de bateria. Ambos os modelos em corpos finos: 9,08 mm e 7,98 mm de espessura, respectivamente — algo possível graças à tecnologia de silício-carbono, ainda pouco adotada.

Baterias tradicionais atingiram o “teto”

Hoje, a maioria dos smartphones usa baterias de íon-lítio com ânodo de grafite. É uma tecnologia consolidada, segura e altamente otimizada ao longo de décadas. Justamente por isso, o espaço para avanços é limitado.

Conversei com Egidio Raimundo Neto, engenheiro elétrico, doutor em Telecomunicações e professor do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), para saber mais do assunto.

Segundo ele, o mercado já extraiu quase tudo o que era possível desse modelo. “As baterias atuais são resultado de anos de refinamento em materiais e processos”, diz. “O grafite tem uma vantagem importante: a expansão durante carga e descarga é relativamente pequena, em torno de 10%, o que garante estabilidade”, explica o professor.

O problema é que essa previsibilidade impõe um limite físico. “Do ponto de vista de construção e de algumas variações de dopagem, já esprememos tudo que podíamos das baterias que estão no mercado”, afirma Neto.

Silício-carbono: maior capacidade, menor vida útil

Aí entram as baterias de silício-carbono, que “aumentam a capacidade para uma mesma área de bateria”. Essa tecnologia substitui parte do grafite do ânodo por silício, um material capaz de armazenar muito mais íons de lítio. 

Na prática, isso permite aumentar a capacidade em cerca de 20% a 30% sem ampliar o tamanho físico da bateria. Ou seja: com o silício-carbono, é possível comercializar celulares finos com números de mAh maiores.

O principal custo dessa nova interação é a vida útil, algo que não aparece de cara. O fim de vida típico da bateria são os 80% de sua capacidade original. Isso significa que, “se a bateria armazenava 100 unidades de energia quando nova, ela é considerada no fim da vida útil quando só consegue armazenar 80”, diz o professor.

A bateria ainda funciona, mas a autonomia cai e o aquecimento pode crescer. Estamos falando em cerca de 3 mil ciclos de carga em baterias de íon-lítio tradicionais, considerando condições perfeitas de uso — o equivalente a mais de oito anos carregando o celular diariamente.

Nas baterias de silício-carbono, esse número cai pela metade, mesmo com bom uso. “Falamos de algo em torno de 1,5 mil. Para smartphones, que as pessoas trocam em dois ou três anos, talvez isso não seja tão relevante. Mas para aplicações mais duráveis, como automóveis ou drones, faz muita diferença”, detalha o professor.

Esses dados podem ser bem diferentes dependendo da condição de uso de cada consumidor. Usar o aparelho na tomada ou não manter ciclos de carga lentos podem afetar esses números. Mas, na teoria, estamos falando de uma grande diferença entre as baterias posta desde a fabricação.

Isso ajuda a entender por que Apple e Samsung ainda não embarcaram no silício-carbono. Os indícios são de que ambas priorizam vida útil previsível e controle rígido da experiência do usuário, mesmo que isso signifique abrir mão de números chamativos na ficha técnica. No caso da sul-coreana, ainda há o trauma causado pelo explosivo Galaxy Note 7.

Fabricantes chinesas querem vencer na força

Do outro lado, as fabricantes chinesas, que encabeçam a oferta de produtos com baterias de silício-carbono, passaram a testar abordagens mais agressivas. Xiaomi, Realme, Honor e Oppo vêm experimentando tanto baterias maiores quanto novas químicas.

A Oppo afirma que superou a expansão das baterias no carregamento com “algoritmos proprietários para o ânodo de silício, mantendo a integridade estrutural e garantindo que a tela e a tampa traseira permaneçam impecáveis, mesmo durante uso intenso”.

O professor Egidio Neto lembra que, quando começaram as pesquisas em torno dessa tecnologia, a expansão do silício chegava a 300%. “Como suportar uma expansão de 300% do volume se o padrão era 10%? Era inviável”, afirma.

A solução veio com o carbono, que traz “resistência para o material” e permite controlar esse aumento. Dessa maneira, o silício-carbono se tornou viável, mas segue num campo de cautela — nos modelos topo de linha das fabricantes chinesas, é raro ver baterias com essa tecnologia.

Uma grande barreira ainda são os custos industriais mais altos. “As linhas de produção precisariam de grandes investimentos”, explica Neto. “Quem tem fatias menores de mercado costuma ser mais audacioso para tentar expandir sua marca”.

Existem também uma diferença entre a capacidade nominal e uso real. Vemos, por exemplo, iPhones com 3.692 mAh equiparando ou superando o desempenho de aparelhos Android com 5.000 mAh em benchmarks de bateria.

Segundo o engenheiro elétrico, isso tem menos a ver com a química da bateria e mais com a forma como a energia é gerenciada. “Existe toda uma eletrônica embarcada e um software que modelam o consumo. O hardware virou commodity; o diferencial está na gestão de energia”, afirma.

A Apple — e, em menor grau, Samsung — investe pesado em controle de processos em segundo plano, integração entre chip e sistema operacional, além da limitação de picos desnecessários de desempenho. O resultado é uma eficiência maior por unidade de energia. Em outras palavras: um “tanque” menor pode render mais se o sistema desperdiçar menos “combustível”.

Muitas vezes é só marketing 

Os principais responsáveis pelo consumo enérgico continuam os mesmos: tela e sistema de áudio, especialmente em jogos. Portanto, promessas de dois ou três dias de bateria quase sempre dependem de cenários de uso moderado — bem diferentes da rotina real de quem passa horas por dia no celular. “Muitas vezes o marketing vende uma ideia e depois o engenheiro tem que dar um jeito de fazer acontecer”, diz o professor.

O consumo dispara quando tudo acontece ao mesmo tempo: tela ligada, transferência constante de dados, Bluetooth ativo, fones sem fio e smartwatch conectados. “Ninguém mais quer fone com fio”, observa Neto. Nesse cenário, qualquer ganho de capacidade é rapidamente diluído.

As baterias de silício-carbono já deixaram o laboratório, mas ainda operam como testes em escala comercial. Na visão do professor, elas ajudam, mas não resolvem todo o problema da autonomia: “é um diferencial competitivo, mas essa tecnologia não vai dar aquele salto de multiplicar por três a capacidade de uma bateria”.

Cadê as baterias de smartphone que duram muitos dias? Tudo evolui, menos isso