Do copo Stanley a iates de luxo: como o Brasil virou potência no design 3D

Tecnologia

De fabricantes de portões automáticos a projetistas de iates de R$ 10 milhões, o mercado brasileiro se tornou a principal geografia global em crescimento para a Dassault Systèmes SOLIDWORKS. Em entrevista ao Canaltech durante a 3DEXPERIENCE World 2026, em Houston (EUA), o diretor da marca para a América Latina, Mario Belesi, detalhou como a diversidade da indústria nacional colocou a região no topo das metas da companhia por três anos consecutivos.

Segundo o executivo, o Brasil concentra cerca de 70% desse volume na América Latina. O segredo não está apenas nas grandes indústrias, mas na capilaridade de uso do software de design 3D em itens de consumo que fazem parte do dia a dia dos brasileiros.

O Canaltech viajou a Houston a convite da Dassault Systèmes.


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Design “Made in Brazil”

Durante a conversa, Belesi revelou exemplos de produtos icônicos desenhados no país. “O escritório de projetos da Stanley, do copo Stanley, fica no Rio de Janeiro. Eles usam [o software] para fazer todo o projeto dos copos que a gente compra para beber cerveja”, contou o diretor.

Outro extremo do mercado é a personalização de luxo. A fabricante de iates Intermarine utiliza a tecnologia para customizar embarcações de alto padrão. “O cliente que vai comprar uma lancha, que começa em 10 milhões [de reais], quer personalizar todo [o mobiliário]. Cada um que vem, senta na engenharia, abre o SolidWorks e começa a ver os modelos”, explicou Belesi.

A ferramenta atende até microempreendedores que antes recorriam à pirataria. Belesi citou o caso de um fabricante de portões que adotou a tecnologia após a criação de pacotes mais acessíveis.

“Ele falou: ‘Cara, a opção que eu imaginava era comprar pirata. E para mim não fazia sentido. Eu jamais faria isso. Então eu fazia na mão'”, relembrou o executivo. “Quando a gente fez um pacote diferente para esse público, ele comprou”.

Fim do “PC da NASA”

Para democratizar o acesso, a principal barreira a ser derrubada foi o custo do hardware. Historicamente, rodar programas de engenharia exigia computadores caros. A migração para a nuvem mudou essa lógica.

“Quando você tem aquele componente cloud nas licenças hoje em dia, você não precisa tanto hardware. Por que? Porque toda a parte de processamento, de simulação, você joga para a nuvem fazer”, detalhou Belesi.

O modelo de assinatura (SaaS) já representa 45% das vendas na região, permitindo que empresas tratem o software como custo operacional (aluguel) e não investimento fixo.

Impressão de aço e robôs submarinos

No campo da alta inovação, o destaque do executivo é o SENAI CIMATEC, na Bahia. O centro utiliza as ferramentas para desenvolver soluções para o setor de óleo e gás, incluindo robótica avançada. “Os caras fazem submarino não tripulado, equipamento para limpeza de casco [de navio]”, afirmou Belesi.

O ecossistema do SENAI CIMATEC é formado por um Centro Tecnológico, uma Universidade e um Centro de Educação Profissional (Imagem: Divulgação/SENAI CIMATEC)
O ecossistema do SENAI CIMATEC é formado por um Centro Tecnológico, uma Universidade e um Centro de Educação Profissional (Imagem: Divulgação/SENAI CIMATEC)

A infraestrutura local impressionou o executivo. “Fiquei assustado de ver eles imprimindo aço, imprimindo peça, parafuso. Eu não tinha visto ainda ao vivo”, disse ele sobre a capacidade de manufatura aditiva do centro brasileiro.

Licença grátis para estagiários

Visando a formação de mão de obra, a empresa aposta no programa Skill Force. A iniciativa isenta empresas de pagarem pela licença de software utilizada por estagiários.

“Pode contratar à vontade, estagiário que você quiser, que a gente te dá o software no tempo que ele for estagiário na sua empresa”, garantiu o diretor.

Sobre o futuro com inteligência artificial, Belesi vê a tecnologia como uma aceleradora de tarefas braçais de design. “Se o usuário vai fazer uma mesa, ele desenha um pé da mesa. O software já entende que aquilo é uma mesa e ele próprio desenha os outros três pés”, exemplificou.

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