
A Ferrari adora uma rivalidade histórica e, por isso, vira e mexe está no centro de “brigas” com outras marcas. Quem não se lembra da história de como nasceu a Lamborghini? Saibam, porém, que a “marca do Touro” não foi a única. A Ford também tem um capítulo especial nessa “rinha automotiva”.
Motivada por uma negociação de compra fracassada, a Ford decidiu desafiar o domínio absoluto da Ferrari na mais prestigiada corrida de endurance do mundo: as 24 Horas de Le Mans.
Para isso, foi necessário criar um carro de corrida do zero, em um projeto, grandioso, que consumiu milhões de dólares e exigiu soluções de engenharia inovadoras para a indústria da época.
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O CT Auto conta agora, em detalhes, como a Ford construiu o GT40, o carro que não apenas competiu, mas venceu a Ferrari em seu próprio território, para espanto geral de uma nação que havia se acostumado a ver o “Cavalo Rampante” reinar soberano no templo do esporte.

Criação do Ford GT40: do conceito à engenharia
O projeto Ford GT (Grand Touring) começou em 1963 com um objetivo claro: vencer em Le Mans. A designação “40” refere-se à altura total do veículo em polegadas (aproximadamente 102 cm), um requisito aerodinâmico para atingir altas velocidades na longa reta Mulsanne.
A engenharia inicial, liderada por Eric Broadley da Lola Cars, estabeleceu as bases do carro, mas foi a evolução técnica posterior que garantiu a vitória, baseada em quatro principais pilares.
Foram eles as bases de sustentação para o que viria a ser um dos supercarros mais badalados das pistas.

- Chassi: A estrutura inicial era um monocoque de aço, um tipo de chassi onde a própria carroceria tem função estrutural, garantindo alta rigidez e baixo peso. Versões posteriores, como o Mk IV, utilizavam estruturas de alumínio em colmeia para reduzir ainda mais o peso.
- Motor: O coração do projeto era o motor Ford. A primeira versão, o GT40 Mk I, usava um motor V8 Ford Fairlane de 289 polegadas cúbicas (4.7 litros). Embora potente, ele não era páreo para a Ferrari na reta. A solução foi o motor big-block 427 (7.0 litros), uma unidade de alta cilindrada derivada dos carros da NASCAR, que oferecia torque massivo e uma potência superior a 485 cv.
- Aerodinâmica: O design de baixo arrasto era essencial. Testes em túnel de vento foram cruciais para otimizar a estabilidade em velocidades acima de 320 km/h, um desafio que causou acidentes nos primeiros protótipos.
- Transmissão e Freios: Estes foram os “calcanhares de Aquiles” do projeto. As caixas de câmbio iniciais não suportavam o torque do motor V8. A Ford desenvolveu uma transmissão própria, a Kar Kraft de quatro velocidades, para garantir a confiabilidade. Os freios a disco, que superaqueciam e falhavam, foram redesenhados com discos ventilados e um sistema de troca rápida desenvolvido pela equipe de Ken Miles, permitindo a substituição de todo o conjunto em minutos durante um pit stop.
Evolução e otimização: a busca pela confiabilidade
Vencer as 24 Horas de Le Mans não exige apenas velocidade, mas principalmente resistência para operar no limite por um dia completo nas pistas. As primeiras participações do GT40 em 1964 e 1965 resultaram em abandonos por falhas mecânicas.
A virada aconteceu quando a Ford entregou o projeto à Shelby American, de Carroll Shelby. O foco da equipe não foi apenas tornar o carro mais rápido, mas torná-lo indestrutível; ou seja, suficientemente forte para aguentar o tranco de uma das provas mais difíceis do planeta. Para isso, a montadora estadunidense trabalhou duro e em três passos principais:
- A chegada do Mk II: A versão de 1966, o GT40 Mk II, foi a que efetivamente venceu a corrida. Ela foi projetada especificamente para abrigar o pesado, porém extremamente potente, motor 427 de 7.0 litros.
- Testes de durabilidade: A equipe de Shelby implementou um regime de testes rigoroso. Usando um dinamômetro, eles simularam as 24 Horas de Le Mans inteiras no motor, programando o equipamento para replicar as acelerações, desacelerações e rotações por minuto de cada trecho do circuito. O motor era aprovado apenas se sobrevivesse ao teste completo.
- Refinamento em pista: O piloto de testes Ken Miles foi fundamental para o desenvolvimento. Seu feedback preciso ajudou a resolver problemas de dirigibilidade, refrigeração e, principalmente, dos freios. Foi ele quem sugeriu e testou as soluções que tornaram o sistema de frenagem confiável.
A estratégia para a vitória: Ford x Ferrari em 1966
A vitória de 1966 não foi fruto de um único carro, mas de uma operação massiva que contrastava diretamente com a abordagem da Ferrari. Confira a seguir como cada marca se preparou para o histórico duelo nas pistas.
Ford (Força Bruta e Orçamento)
- Poderio Industrial: A Ford alocou um orçamento quase ilimitado, mobilizando múltiplas equipes (Shelby American e Holman & Moody) e inscrevendo diversos carros para maximizar as chances de vitória.
- Foco na Potência e Durabilidade: A estratégia era simples: usar a potência superior do motor 427 para dominar na reta Mulsanne e garantir que o conjunto mecânico fosse robusto o suficiente para durar 24 horas, mesmo que isso significasse um carro mais pesado e menos ágil nas curvas.
Ferrari (Tradição e Agilidade):
- Engenharia Refinada: A Ferrari competiu com a 330 P3, um carro mais leve e ágil, com um sofisticado motor V12 de 4.0 litros. A aposta da Ferrari era na maior eficiência em trechos sinuosos e na tradição de construir carros de corrida vencedores.
- Recursos Limitados: Como uma fabricante de menor porte, a Ferrari não podia competir com o investimento financeiro e humano da Ford.
No fim, a abordagem da Ford prevaleceu. A potência e, principalmente, a confiabilidade exaustivamente testada do GT40 Mk II se mostraram a fórmula correta. Em 1966, três Ford GT40 cruzaram a linha de chegada juntos, selando uma vitória histórica e humilhante para a Ferrari.
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