
Resumo
- A inteligência artificial tem impactado negativamente freelancers em áreas como marketing e design. Clientes estão substituindo profissionais por soluções de IA, resultando em menos demanda, preços mais baixos e prazos mais apertados.
- Freelancers relatam perda significativa de clientes e redução de remuneração. Alguns profissionais tiveram que buscar alternativas, como aumentar preços, buscar clientes no exterior ou mudar de carreira.
- A substituição por IA não é sempre eficaz. Empresas enfrentam falhas em projetos de IA e insatisfação de clientes. Alguns freelancers observam uma “ressaca de IA”, com clientes voltando a valorizar o trabalho humano.
O hype da inteligência artificial generativa tem pouco mais de três anos. Alguns usuários parecem incomodados com a insistência em ferramentas do tipo. Muitas empresas ainda não viram a tecnologia dar resultados na prática. Mas vários trabalhadores já sentem o impacto da inovação — e, para essas pessoas, ele não é positivo.
O Tecnoblog conversou com profissionais freelancers de áreas como marketing, publicidade, artes e design. Eles contam que os clientes sumiram, as demandas deixaram de chegar, os preços despencaram e os prazos ficaram mais apertados. As consequências para essas pessoas são menos dinheiro no bolso e mais ansiedade.
“Até 2021, eu conseguia me manter com uma boa cartela de clientes, mas, de 2022 para frente, caiu mais de 50%”, conta Paula*. Ela é jornalista e atua como redatora de conteúdos para blogs e e-books.
Mariana*, que é designer de livros, passou por uma situação parecida. “Antes, eu recebia por volta de cinco pedidos de orçamento por semana. Sempre acabava com pelo menos uma contratação. Hoje, os contatos diminuíram quase pela metade”, conta.
Hoje em dia, os autores e as editoras que a procuram estão mais decididos a contratar um profissional, diz a designer. Mesmo assim, ela passou a ter menos clientes por mês.
Para Fabio Farro, a queda foi ainda mais brusca: ele estima que, entre 2023 e 2024, houve uma redução de 90% no número de clientes que o contratam. Experiente em roteiros de documentários e vídeos institucionais, ele passou a fazer também serviços de revisão de texto e tradução para pessoas físicas.
A produtora de textos Beatriz* conta que perdeu todos os clientes — antes de 2024, ela atendia mais de dez marcas de uma vez. “Felizmente, eu tenho um trabalho CLT e consigo segurar o orçamento, mas aquela minha verba que dava uma força no fim do mês já não vem mais”, lamenta.
Trocas silenciosas e decisões de mercado
A perda de clientes nem sempre é acompanhada por uma comunicação clara por parte das empresas. “Dos meus clientes, tive alguns que sumiram mesmo. Só descobri porque fui olhar a página deles na Amazon e tinha lá uma penca de livros novos, com as capas feitas por IA”, diz Mariana.
O coordenador de marketing Ricardo* também não recebeu nenhum aviso, mas foi fácil entender o que estava acontecendo. “As empresas para as quais eu prestava serviços sofreram pressão para demonstrar que estavam investindo em IA. Tinha que tirar esse dinheiro de algum lugar, e o lugar de onde elas tiraram foi o marketing”, relembra.
Em alguns casos, a substituição é aberta. A redatora publicitária Viviane Fortes conta que, em uma das agências onde é freelancer, os redatores foram substituídos por “operadores de ChatGPT”.
As empresas que contratavam Beatriz também foram sinceras. “Fui perdendo um cliente atrás do outro, com a justificativa de que iriam centralizar todas as demandas internamente, focando em deixar apenas um profissional responsável pela produção via IA.”
Remuneração menor
O cenário pós-IA generativa não é apenas de menos contratos para freelancers — é também de pagamentos mais baixos, já que a tecnologia se tornou uma concorrente muito mais barata. “O preço por texto está aquém do que era praticado até 2021, e as agências demoram a pagar”, relata Paula.
Ricardo vem passando por esse mesmo processo de remunerações cada vez menores. Ele diz que, desde 2023, sempre que deixou de prestar serviços para uma empresa, foi trabalhar para outra que pagava menos.
Fortes conta que os redatores de uma das agências onde ela presta serviços nem consideram conversar sobre uma atualização na tabela de preços, que está congelada desde a pandemia. Para fugir das condições cada vez piores da área, ela planeja uma migração de carreira para análise de dados ou para o setor público.
Com menos clientes e pagamentos menores, os freelancers passam dificuldades. “Precisei voltar a morar com a minha mãe, e bate o desespero de não conseguir emprego na minha área”, diz Farro.
Nesse sentido, Mariana é uma exceção. A designer conta que conseguiu se manter no zero a zero, mas precisou de várias estratégias para compensar a queda no movimento: aumentar preços, criar materiais para bancos de imagens, buscar clientes no exterior e abrir uma loja online com designs pré-prontos de capas de livros (vendidos uma única vez, para manter a exclusividade para quem compra).
Novos parâmetros
Além de perder clientes e receber menos, os frilas precisaram se adaptar a um cenário profissional em que o referencial passou a ser a máquina. Ricardo conta que trabalhou para uma agência de e-mail marketing que pedia de 20 a 25 disparos por dia, para clientes diferentes.
Para dar conta, ele e os outros contratados passaram a usar um GPT personalizado para gerar os textos, ainda que isso sacrificasse a qualidade do trabalho. “Não fazia sentido para a empresa que ficasse bem feito o e-mail. Eles queriam mandar o máximo possível de mensagens no menor tempo possível. Ninguém ia ler aquilo. Nem quem fazia, nem quem revisava, nem quem recebia”, conta o redator.

Paula diz que mais habilidades passaram a ser exigidas dos freelancers contratados. Para ela, isso está diretamente ligado às novas ferramentas. “As empresas te substituem pela IA e, ao mesmo tempo, exigem que você saiba fazer tudo que uma IA faz. Então eu tenho que saber sobre redação, tradução, design, edição de vídeo, métricas, sendo que muitas dessas coisas não são da minha alçada.”
A designer Mariana passou por situações semelhantes. “Eu enviava orçamentos para potenciais clientes e recebia a devolutiva com: ‘poxa, eu até gosto do seu trabalho, mas muito caro e demorado. Se eu for fazer com IA, eu recebo na hora e nem gasto tudo isso’. Como se fosse perfeitamente comparável o trabalho de um robô com o de uma pessoa”, dispara.
“Ressaca de IA”
As empresas podem ter trocado serviços de freelancers por produções feitas com inteligência artificial generativa, mas a tecnologia está longe de ser uma unanimidade. Usuários do Windows, por exemplo, passaram a se referir à Microsoft como “Microslop” por causa da insistência da companhia em empurrar ferramentas de IA.
Do lado das empresas, um estudo do MIT realizado em 2025 aponta que 95% dos projetos envolvendo IA generativa falham. Em uma pesquisa recente da consultoria PwC, 56% dos CEOs entrevistados disseram que “não estão ganhando nada” com a adoção da tecnologia.

Os freelancers com quem conversei já observam que trocar humanos por robôs não é tão simples quanto as empresas gostariam. “Eu começo a sentir que tem uma ressaca desse movimento. Tem algumas pessoas percebendo que você não consegue substituir redator por IA e valorizando um pouco mais o trabalho. Mas eu diria que não voltou ao que era em 2023, ainda está longe disso”, avalia Ricardo.
Fortes, que viu outros redatores serem trocados por “operadores de ChatGPT”, é testemunha de como a substituição não é tão simples.
“A quantidade de pedidos para refazer textos dos operadores é altíssima, tem muita reclamação dos clientes, e muitos já cancelaram contrato.”
Em alguns casos, até a reação do público pode ser um fator determinante para preferir o trabalho humano, ainda que isso se manifeste de um jeito inusitado.
“Já recebi briefings pedindo para eu seguir exatamente aquele rascunho feito por IA, porque [o cliente] gerou aquela arte e gostou muito, mas queria que uma pessoa ‘arrumasse’ e ‘assinasse’ a arte porque sabia que pegaria mal se descobrissem que era IA”, conta a designer Mariana.
Ela se recusa a aceitar esse tipo de serviço, que chama de “lavagem de arte”. Outra decisão foi não usar nenhuma ferramenta de IA em seu trabalho, por questões éticas e morais.“Tenho clientes que resolveram me contratar justamente porque eu não uso IA. Não usar IA nesse mercado virou um ‘diferencial’, por mais absurdo que pareça”, explica.
Sofrimento real
Mesmo conseguindo equilibrar as contas em meio a tempos difíceis, a designer Mariana admite o incômodo com a situação. “Esse é um trabalho que eu amo fazer e vejo ser desvalorizado cada vez mais. É triste ver quando somos substituídos por IA depois de aquele cliente ter feito mais de uma dezena de projetos contigo. Você fica pensando onde foi que errou”, lamenta.
O coordenador de marketing Ricardo é mais um freelancer que sentiu o impacto da IA em sua saúde mental. “Desde 2023, eu faço tratamento para ansiedade, que é uma situação obviamente afetada pela instabilidade profissional. É muito difícil se programar financeiramente em um cenário em que a sua principal fonte de renda pode sumir de um dia para o outro.”
Ele aponta ainda que a chegada da inteligência artificial generativa criou um clima de desconfiança no setor, que contribui para a desvalorização do trabalho e afeta a autoestima dos profissionais. “Parece que a pessoa se sente idiota por estar te pagando para escrever, sendo que ela acha que uma máquina pode fazer instantaneamente.”
Fortes viveu uma situação parecida, em que a IA foi usada para desprezar seu trabalho. “Já tive que ouvir de dono de agência que o ChatGPT é o redator perfeito. Ficamos todos com cara de bunda na hora, mas todo mundo tem boletos e entubou o desaforo.”
No caso do redator Farro, o cenário profissional pós-IA tem afetado até atividades que poderiam fazê-lo se sentir melhor. “Era o meu sonho, desde pequeno, trabalhar com escrita. Tento me distrair (e apostar) em um projeto autoral, mas fica difícil quando não se tem dinheiro”, desabafa.
Nomes marcados com * foram alterados a pedido dos entrevistados para proteger suas identidades.
“Fui perdendo um cliente atrás do outro”: como a IA tem afetado freelancers

