
Com o passar dos anos, novos jogos e franquias marcam a todos para sempre, enquanto alguns lançamentos antigos passam por um verdadeiro arco de redenção ao retornar das cinzas e do esquecimento.
Fala a verdade: você com certeza já ouviu a infame história de No Man’s Sky, que se redimiu de promessas exageradas e do hype absurdo, sendo hoje destaque em premiações como o The Game Awards. Essa volta por cima não aconteceu do nada: a Hello Games trabalhou duro por anos para entregar recursos prometidos e escutar a comunidade.
Na indústria dos games, há todo tipo de redenção: desde aquelas em que o estúdio não desiste de um projeto, mesmo com fracassos monumentais, até casos em que a própria comunidade revive o jogo com anos de trabalho. Pensando nisso, o Canaltech listou 6 jogos horríveis no lançamento que hoje são adorados.
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6. Vampire: The Masquerade – Bloodlines
Há casos em que a redenção dos jogos não parte nem da desenvolvedora nem da publisher, mas sim dos próprios fãs. Foi isso o que aconteceu com Vampire: The Masquerade – Bloodlines, da Troika Games e publicado por ninguém menos do que a Activision. Parte do fracasso do RPG vai muito ao encontro com o contexto da época. A Troika Games foi a primeira desenvolvedora a licenciar a Source Engine da Valve, motor gráfico que ainda estava em desenvolvimento. Ou seja, os produtores precisavam lidar com uma ferramenta instável, além de prazos apertados e sem muito marketing por parte de sua publisher.
O caótico desenvolvimento resultou no lançamento de Vampire: The Masquerade – Bloodlines em 14 de novembro de 2004, isso mesmo, próximo de Halo 2 e Half-Life 2. Nem é preciso dizer que o RPG foi um fracasso monumental, com sérios problemas de performance, campanha quebrada, IA deficitária e todo tipo de problema cavernoso que lançamentos apressados possuem, apesar de ter sido bem elogiado na época por sua narrativa de respeito. O fracasso culminou no fechamento da Troika Games em 2005 e num abandonado Vampire: The Masquerade – Bloodlines sem patches até a versão 1.2.

Porém, um fã salvaria todo o legado do RPG, trazendo um excelente título por trás de tantos problemas. O jogador em questão era Werner Spahl, também conhecido como Wesp5. Spahl assumiu a missão de reviver Bloodlines com o projeto Unofficial Patch. Ele e toda a comunidade conseguiram corrigir milhares de bugs, restaurar conteúdos e recursos cortados, além de lançar melhorias e atualizações massivas. Vampire: The Masquerade – Bloodlines Unofficial Patch recebeu atualizações mesmo mais de 20 anos depois, com a versão 11.5 lançada no ano passado.
Os esforços transformaram o que era um RPG órfão à beira do esquecimento em um clássico cult de PC. Infelizmente, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 acabou seguindo os mesmos passos de seu antecessor. Quem sabe os fãs não resgatam o desastroso lançamento da Paradox?
5. Fallout 76
A Bethesda dominou a indústria dos games ao definir um mundo pré e pós-Skyrim. Sua franquia irmã, Fallout, também ia muito bem e se consolidava como um dos melhores RPGs ocidentais, pelo menos até 2018. Claro que, olhando para trás, sabíamos de problemas como algumas promessas ambiciosas demais de Todd Howard e polêmicas envolvendo práticas predatória, como no infame caso de Prey e a Human Head Studios, mas na época de Fallout 76 o hype era quem dominava.
O jogo foi anunciado de surpresa na E3 de 2018 e prometia ser a primeira experiência multiplayer online da franquia Fallout. A decisão, de cara, não agradou a muitos fãs. Fallout cresceu e chegou ao seu auge com jogos single-player. Promessas aqui e ali, o RPG chegava ao PC e consoles em 14 de novembro de 2018, com um bom número de cópias vendidas.

Contudo, esse resultado financeiro positivo não conseguiu mascarar a sujeira debaixo do tapete da Bethesda. Fallout 76 foi massacrado por seus bugs constantes, problemas de servidores, grind excessivo e microtransações abusivas. Além disso, o RPG foi trucidado pela crítica e ainda enfrentou memes relacionados ao seu mapa vazio.
O show de horrores acabou passando graças às atualizações de conteúdo gratuitas, que consertavam o jogo base e incluíam pedidos de fãs, como NPCs humanos, mais diálogos e as facções. Além disso, Fallout 76 recebeu diversos pontos de interesse e eventos. Obviamente, a série de Fallout do Prime Video ajudou a catapultar ainda mais essa etapa de redenção, apesar de ainda haver críticas sobre a monetização do jogo.
4. Diablo III
Agora imagine esperar 15 anos por uma sequência de uma das franquias mais importantes da história dos videogames e se deparar com uma mensagem enorme marcada pelo status ERROR 37. Foi assim que começou a saga de redenção de Diablo III, facilmente um dos lançamentos mais caóticos da Blizzard.
O jogo foi anunciado em 2008 e prometia ser o ‘Diablo definitivo’, o que incendiou a comunidade do ARPG. Diablo III quebrou recordes na pré-venda e prometia ser o maior lançamento da história dos videogames. No entanto, algumas decisões da Blizzard fizeram com que o que seria uma grande festa dos fãs se tornasse uma gigantesca dor de cabeça. A desenvolvedora optou por tornar o ARPG always-online, mesmo para quem queria jogar no modo single-player.

Diablo III chegou ao PC no dia 15 de maio de 2012 e vendeu mais de 3,5 milhões de unidades nas primeiras 24h. No entanto, nem todos os jogadores conseguiram começar sua jornada em New Tristram. O número de usuários tentando acessar o jogo simplesmente colapsou os servidores e ultrapassou todas as expectativas de venda da Blizzard. A maioria dos jogadores sofreu com o famoso ERROR 37, que acabou por viralizar rapidamente. Além disso, a produtora da Califórnia teve a brilhante ideia de lançar uma loja com ouro e dinheiro real chamada Auction House, o que quebrou a economia do jogo, além de acabar com o sistema de looting.
A resposta definitiva da Blizzard para o lançamento conturbado foi dada dois anos depois com a chegada da expansão Reaper of Souls, com uma nova classe, adição do Ato V, novo modo e um endgame inédito que permitia maior rejogabilidade. Além disso, a desenvolvedora reformulou o loot de Diablo III, tornando-o mais justo e competitivo. A cereja do bolo foi o encerramento da Auction House naquele mesmo ano.
3. Assassin’s Creed Unity
Não é segredo para ninguém que a Ubisoft está em seu pior momento na história. Seus jogos não atingem o mesmo prestígio que antigamente e a companhia está a todo momento envolta em polêmicas, demissões e cancelamentos. Dois jogos que marcam esse começo do fim da Ubisoft chegaram em 2014: Watch Dogs e Assassin’s Creed Unity.
Para quem já conhece a história, Watch Dogs só alcançou a redenção na sequência. Já Assassin’s Creed Unity foi uma verdadeira montanha-russa, ou melhor, francesa. O jogo baseado na Revolução Francesa prometeu mundos e fundos, com uma Paris 1:1, mil NPCs e a continuidade do legado de Black Flag, favorito dos fãs até hoje. Afinal, este era o primeiro Assassin’s Creed completamente lançado para a nova geração do PlayStation 4 e Xbox One, então a expectativa alta era justificável.

Apesar de ter vendido muito bem, Assassin’s Creed Unity foi uma bomba técnica monumental. Os problemas e bugs iam do protagonista Arno sendo sugado pelo chão a estruturas invisíveis, NPCs travados e graves falhas no modo cooperativo. A empresa francesa já estava sob pressão por conta do lançamento desastroso de Watch Dogs em maio daquele ano, o que levou o CEO da Ubisoft Montreal & Toronto na época, Yannis Mallat, a pedir desculpas públicas.
A redenção começou ainda em 2014, ao dar a todos os jogadores acesso gratuito à expansão Dead Kings. Quem comprou o passe de temporada anteriormente pôde resgatar um jogo gratuito da Ubisoft. A volta por cima também ocorreu através de várias atualizações e patches responsáveis por consertar a experiência vista na época como injogável. Hoje, Assassin’s Creed Unity é muito bem avaliado em plataformas como a Steam. O título é frequentemente elogiado, principalmente num momento tão difícil que a Ubisoft está a passar.
2. No Man’s Sky
No Man’s Sky é, sem dúvidas, um dos casos mais curiosos de redenção na indústria. O jogo da Hello Games foi revelado durante o VGX 2013. Foi anunciado como um jogo massivo, com um universo procedural de 18 quintilhões de planetas e possibilidades infinitas, embora essas informações tenham sido reveladas em entrevistas um pouco vagas.
A Sony foi responsável pelo crescimento ainda maior do hype ao destacá-lo na E3 de 2014. Somado a isso e às vagas ideias do que era, de fato, No Man’s Sky, além das promessas ousadas de Sean Murray, tínhamos todos os elementos para uma grande bomba. A expectativa era alta, mas o lançamento veio para provar o contrário.

No Man’s Sky chegou em 9 de agosto de 2016 e foi um verdadeiro desastre. Houve a falta de multiplayer, escancarada por dois jogadores que se encontraram, mas não se viam, recursos ausentes, bugs graves e travamentos. Até a fauna alienígena sofreu com a repetitividade.
Contudo, ao invés de simplesmente largar o jogo, a Hello Games investiu em atualizações gratuitas massivas que mudariam o título e trariam as promessas feitas. Dito e feito: o jogo recebeu uma tonelada de conteúdos, venceu diversos prêmios e ainda hoje bate recordes de jogadores. A Hello Games agora trabalha em Light No Fire e, com este histórico, a expectativa para o novo título é alta. Só esperamos que isso não seja um mau sinal.
1. Cyberpunk 2077
Apesar da virada histórica da Hello Games, o caso mais famoso de redenção recente é o de Cyberpunk 2077. O jogo foi anunciado em 2012 e retornou com um hype massivo na E3 2018 e 2019. Naquela altura, a CD Projekt RED era um dos estúdios mais admirados do mundo por causa de The Witcher 3: Wild Hunt. Além disso, o hype era justificável. A produtora polonesa investiu pesado no marketing do jogo, trailers espalhafatosos e com a participação de Keanu Reeves (you’re breathtaking!).
Após diversos adiamentos, o que deveria ter sido um sinal de que as coisas não iam bem, e uma recepção inicial positiva da crítica, o jogo chegou em 10 de dezembro de 2020 abalando corações, mas não da forma esperada. Além das toneladas de bugs, o jogo rodava extremamente mal no PC, PlayStation 4 e Xbox One. Muitas das promessas feitas pela CD Projekt RED foram simplesmente quebradas, com cortes de conteúdo e recursos malfeitos. Apesar das centenas (ou milhares) de reembolsos e do caos na imagem pública da desenvolvedora, Cyberpunk 2077 vendeu mais de 13 milhões de unidades em menos de um mês.

Antes uma das desenvolvedoras mais bem vistas pela indústria, a polonesa corria para corrigir os diversos problemas e tentar consertar o desastre de Cyberpunk. A redenção e a aclamação aconteceram três anos mais tarde, em 2023, quando a CD Projekt RED lançou a expansão Phantom Liberty após o sucesso do anime Cyberpunk: Edgerunners, que catapultou as vendas do jogo.
Cyberpunk 2077 foi responsável por uma mudança de comportamento geral: se antes os jogadores apressavam as produtoras e criticavam duramente quando algum jogo era adiado, hoje somos muito mais pacientes e compreensivos com novos adiamentos.
Estes são os 6 jogos horríveis no lançamento que hoje são adorados:
- Cyberpunk 2077;
- No Man’s Sky;
- Assassin’s Creed Unity;
- Diablo III;
- Fallout 76;
- Vampire: The Masquerade – Bloodlines.
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