Julgamento histórico: Meta e YouTube respondem por vício em redes sociais

Tecnologia

Pela primeira vez, as gigantes da tecnologia terão que se defender diante de um júri popular sobre alegações de que seus produtos foram intencionalmente desenhados para causar vício e danos à saúde mental de jovens. 

O julgamento, que teve início nesta semana no Tribunal Superior de Los Angeles, na Califórnia, coloca a Meta (Facebook e Instagram) e o YouTube (Google) no banco dos réus e pode redefinir a responsabilidade legal das Big Techs nos Estados Unidos.

O processo atual foca no caso de uma jovem de 19 anos, identificada nos autos apenas como “K.G.M.”. A acusação sustenta que o uso das redes sociais desde a infância contribuiu diretamente para o desenvolvimento de um quadro severo de depressão e pensamentos suicidas.


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O TikTok também foi citado inicialmente como réu no processo, mas a empresa chinesa optou por fechar um acordo com a vítima na terça-feira (27), noite anterior ao início do julgamento, evitando a exposição no tribunal neste caso específico. A Snap Inc., dona do Snapchat, também realizou um acordo similar na semana anterior.

Design no centro da acusação

A importância deste julgamento reside na mudança da estratégia legal dos acusadores

Diferente de processos anteriores, que focavam no conteúdo postado por terceiros — área onde as empresas geralmente são protegidas pela Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações dos EUA —, o foco agora é o design dos aplicativos.

A tese da acusação é que o “réu” é o próprio funcionamento da rede social. O processo alega que algoritmos, sistemas de recompensa variável e elementos visuais foram desenvolvidos deliberadamente para prender a atenção de crianças e adolescentes a qualquer custo, utilizando táticas psicológicas comparáveis às da indústria do tabaco e de máquinas caça-níqueis.

Documentos internos da Meta, que devem ser expostos durante o julgamento, podem corroborar essa visão. Advogados da acusação afirmam que funcionários da empresa chegaram a descrever o Instagram como uma “droga” e a si mesmos como “traficantes” em comunicações internas.

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Mark Zuckerberg, fundador e CEO da Meta, deve comparecer ao julgamento (Imagem: Marcelo Fischer/Canaltech)

Defesa e implicações para o futuro

As plataformas se defendem argumentando que seus produtos não são a causa direta dos problemas de saúde mental da jovem e que já oferecem diversas ferramentas de segurança e controle parental. 

A Meta alega que culpar as redes sociais simplifica excessivamente a complexidade das questões de saúde mental na adolescência. A expectativa é que Mark Zuckerberg, CEO da Meta, compareça ao banco das testemunhas para defender a empresa.

Já o YouTube sustenta que sua plataforma opera de maneira fundamentalmente diferente de seus concorrentes de mídia social e não deveria estar no mesmo julgamento.

Se as empresas perderem o caso, o veredito pode abrir caminho para milhares de outros processos de pais e distritos escolares que já aguardam na fila de espera. 

Uma derrota obrigaria as Big Techs a realizarem mudanças profundas na arquitetura de seus aplicativos, forçando uma reformulação no modelo de engajamento que sustenta a economia da atenção atual.

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