Por que o Pix Automático ainda não decolou? Entenda os motivos da baixa adesão

Tecnologia

O Pix Automático, ferramenta que automatiza o pagamento de contas via Pix, foi lançado pelo Banco Central (BC) em junho de 2025. Contudo, meses após a sua estreia, a nova modalidade ainda não pegou tração como o QR Code e demais formas de iniciação. 

Em seu melhor mês, dezembro de 2025, foram registradas 599 mil transações pelo Pix Automático. O número é ínfimo se comparamos com os 2,7 bilhões da Chave Pix ou os 2,9 bilhões do QR Code Dinâmico. 

O cenário contrasta com o otimismo demonstrado pelo BC durante o lançamento da ferramenta: a autarquia projetava que a modalidade poderia até substituir o cartão de crédito em pagamentos recorrentes, como streamings e assinaturas.


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Na época, a expectativa era incluir financeiramente cerca de 60 milhões de pessoas sem cartão de crédito, permitindo o acesso a serviços digitais que exigem essa forma de pagamento. 

Renato Migliacci, vice-presidente de Vendas da Adyen Brasil, reforçou em entrevista ao Canaltech que “o Pix Automático é uma resposta a essa necessidade do mercado de usar o Pix para débitos recorrentes” para quem está fora do sistema de crédito.

Mesmo com o BC tornando o método obrigatório para todas as instituições financeiras em outubro, acelerando a disponibilidade da função em aplicativos de bancos, os números ainda não se aproximam do QR Code Estático — que precisa ser gerado apenas uma vez e não a cada nova transação —, cerca de 1 mil vezes maior em dezembro (590 milhões).

No momento, operadoras como Vivo, Claro e TIM já aceitam o Pix Automático para o pagamento de contas, além de diversos serviços de streaming e prestadoras de serviço de luz e água. 

Mas por que os números ainda são baixos? 

Diferentemente da Chave Pix, usada para transferências pontuais, o Pix Automático possui uma dinâmica distinta. Ele atua como uma evolução tecnológica do débito automático tradicional. 

Segundo Migliacci, enquanto o débito automático opera com base em trocas de arquivos entre empresas e bancos — um processo que pode levar dias —, o Pix Automático é totalmente baseado em APIs.

“O débito automático é baseado em troca de arquivo entre estabelecimento e instituição. Isso leva tempo, gera carga operacional e demora dias para as confirmações“, afirma.

Apesar dessa inovação, a frequência de uso é naturalmente menor. Enquanto um usuário utiliza a Chave Pix diariamente para pequenas compras, o Pix Automático é acionado apenas nos vencimentos de faturas mensais, gerando um volume de transações significativamente inferior por natureza. 

Caso uma pessoa decida usar a função para pagar a conta de internet, por exemplo, isso gera ao todo 12 transações em um ano

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Ao centro, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, durante o evento Conexão Pix (Imagem: Bruno De Blasi/Canaltech)

É de se esperar que, mesmo com cada vez mais empresas oferecendo a modalidade, o número de transações ainda seja bem menor do que de outros tipos de Pix. E, segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o custo de adaptação das empresas é um dos empecilhos para o crescimento do Pix Automático. 

A federação aponta ainda que essas companhias já possuem soluções de automação para a gestão de pagamentos, e não modernizaram seus sistemas. 

“Esta é a mesma razão que faz com que muitas empresas hoje ainda utilizem o TED ao invés de migrarem para o Pix, pois ainda não investiram na modernização de suas automações”, afirma a Febraban. 

Há, também, a necessidade de solicitar novas autorizações aos clientes na hora de migrar para o Pix Automático ao invés do tradicional débito automático. 

“Muitas empresas têm a preocupação de que a eficiência desse novo pedido de autorização nos primeiros meses de migração possa ficar entre 70% e 80%, podendo gerar impactos expressivos na inadimplência e receita da empresa”, completa. 

Além do receio das empresas com a inadimplência, há também características do pagador brasileiro que explicam, pelo outro lado, porque a ferramenta não despontou.

O medo do endividamento

Historicamente, o brasileiro não tem o costume de pagar suas contas no débito automático para não ter o dinheiro “retirado” automaticamente e correr o risco de ficar sem a quantia em caixa. 

Economista e professor da Fundação Getulio Vargas, Robson Gonçalves explica que, para famílias de baixa renda, “deixar vencer alguns boletos é algo tão comum que uma ferramenta que já ‘trave’ o pagamento não se torna atrativa”, visto que a chance de ficar inadimplente será alta. 

Segundo o Mapa da Inadimplência Serasa de 2025, quase metade da população brasileira adulta está com alguma conta atrasada. Isso representa cerca de 73 milhões de pessoas

Em comparação com outros países, o Brasil está bem atrás na utilização do débito automático. “Mercados como Holanda, Alemanha e países nórdicos utilizam o débito automático como principal forma de pagamento recorrente há muitos anos, com menor dependência de cartões”, disse Renato Migliacci, da Adyen.

Se pegarmos o Reino Unido, por exemplo, cerca de 90% da população paga suas contas de luz, água, gás e outros serviços com o débito automático, segundo dados da Pay.UK. Do outro lado do Atlântico, a taxa varia entre 30 a 40% no Brasil. 

“O Brasil seguiu um caminho diferente, no qual o cartão de crédito acabou assumindo um papel bastante relevante também na recorrência, em parte porque o débito automático tradicional é um processo fragmentado, de complexa integração e manutenção e pouco amigável pela perspectiva do público consumidor”, completa o executivo. 

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De acordo com o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas já fizeram ao menos uma transação via Pix (Imagem: Ivo Meneghel Jr/Canaltech)

O que falta para o Pix Automático decolar?

Para Migliacci, da Adyen, a adoção de uma nova modalidade de pagamento exige um tempo natural de maturação e de conhecimento por parte do público consumidor. 

O executivo reforça que o produto está tecnicamente pronto para operar, mas o ritmo de adesão depende que as empresas se organizem para priorizar esse desenvolvimento em seus sistemas.

Ainda assim, a mudança é vista como “inevitável” no contexto atual. Migliacci aponta que existem incentivos claros para a migração, como fluxos técnicos mais modernos e condições comerciais de sustentação do produto que se mostram muito mais atrativas no longo prazo.

“É uma questão de tempo até que as empresas consigam finalizar as implantações técnicas e oferecer ao público geral, dado que existem incentivos bastante claros em relação ao Pix Automático”, afirma.

Do lado da segurança, a Febraban destaca que a solução é mais robusta que o débito interbancário tradicional. 

O Pix Automático exige que o cliente dê a autorização expressa na instituição financeira onde possui a conta, e não apenas na empresa recebedora, o que elimina a possibilidade de débitos ocorrerem sem consentimento real.

Apesar do início lento, a perspectiva para o futuro é positiva. O brasileiro possui um perfil “early adopter” e costuma abraçar novas tecnologias rapidamente, como ocorreu com o próprio Pix original. 

“Se for feito um trabalho bem feito de comunicação também sobre o benefício para o público consumidor, eu não tenho dúvidas de que esse produto vai ser amplamente utilizado daqui para frente”, projeta Migliacci.

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