Review Cairn | Escalar em um videogame nunca foi tão divertido

Tecnologia

Há algum tempo, pudemos compartilhar uma lista com os melhores jogos que traduzem a experiência de escalar nos videogames. Na matéria, trouxemos uma menção honrosa para Cairn, que, naquela altura do campeonato, ainda não tinha sido lançado. Devo dizer que, depois de experimentar mais de 8 horas escalando o Monte Kami com a alpinista profissional Aava, precisamos colocar Cairn no cume desta lista.

Desenvolvido pela The Game Bakers, o jogo consegue equilibrar desafio e diversão de forma magistral, graças aos seus elementos de gerenciamento e sobrevivência, que entregam brutalidade nas escaladas.

Diferentemente de outros jogos, Cairn pretende ampliar o leque de possibilidades durante uma escalada. Aqui, você precisa se preocupar não só com recursos, fome e sede, mas também com o clima, a visibilidade, os machucados e o estado de suas ferramentas de alpinista. Apesar de não ser necessariamente um simulador, é uma excelente pedida para quem quer uma experiência de escalada complexa, traduzida em uma interface agradável, enquanto sobe a maior montanha do mundo.


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Pontos positivos

  • Gráficos em cel-shading que servem ao gameplay
  • Mecânica de sobrevivência e gestão de recursos na medida certa
  • Desafiador e brutal
  • Exploração que recompensa
  • Cenários fantásticos

Pontos negativos

  • Algumas quedas podem parecer injustas
  • Problemas de colisão

Escalando a montanha mais alta do mundo

Cairn apresenta Aava, uma alpinista profissional muito reconhecida no mundo da escalada, que parte para o maior desafio de sua vida: ser a primeira pessoa a alcançar o topo do Monte Kami. Ela é uma protagonista obstinada, que coloca seu objetivo em primeiro lugar enquanto carrega o peso do legado de seu pai, outro alpinista lendário.

A base de Cairn está justamente em sua mecânica de escalada. No jogo, controlamos um membro de Aava por vez (pernas e braços), sempre atentos à distribuição de peso e buscando saliências, rochas e rachaduras em verdadeiros paredões de pedra. Esse controle encanta logo de início e se mostra bastante desafiador. Em certos momentos, e dependendo da sua posição, a alpinista pode perder o vigor ou a aderência e acabar se desequilibrando, o que leva à queda ou à morte em alturas mais elevadas.

Vez ou outra, será necessário descansar no meio da subida, seja para se estabilizar e recuperar o vigor rapidamente, seja para colocar um píton e usar sua corda para um descanso mais prolongado. O Climbot, seu pequeno assistente robô, te ajudará em várias ocasiões, como na recuperação de pítons, na produção de magnésio (um pó que aumenta a aderência) e atuando como a ponte de comunicação entre Aava, sua namorada e seu agente chato (à la Barry de Alan Wake).

Os gráficos em cel-shading ajudam muito na visibilidade e na profundidade das áreas nas quais podemos ou não nos apoiar. Isso é um excelente acerto e, com certeza, fará Cairn envelhecer de forma bem mais lenta do que outros indies que apostam em uma fidelidade gráfica mais realista.

Controle de membros de Aava é o ‘core’ de gameplay de Cairn (Divulgação/The Game Bakers)

A apresentação visual do jogo serve não apenas como um deleite, mas também como uma recompensa após escalar dezenas de metros. Prepare-se para contemplar vistas de paisagens maravilhosas e descansar sob um céu noturno estrelado. Os cenários de Cairn conseguem passar uma sensação inexplicável de calma, mesmo sendo necessário passar por alguns obstáculos desafiadores e, até mesmo brutais, para chegar lá.

Cairn usa e abusa de sistemas de sobrevivência e gestão de recursos. Ao escalar as montanhas, Aava encontra diversos itens, desde macarrão instantâneo velho até flores e ervas medicinais. Com isso, ela pode produzir bebidas e alimentos que, quando combinados, ajudam a estabilizar as barras de fome, sede, saúde e até de temperatura. Algumas dessas receitas, inclusive, podem conceder bônus valiosos na hora de escalar.

Todos esses itens e outras ferramentas são distribuídos na mochila de Aava e ocupam um espaço físico nela. Esse sistema de inventário é tão engenhoso quanto o clássico de Resident Evil 4, em que organizar os suprimentos vira quase um quebra-cabeça.

Cairn - Review
Escalar no escuro é um desafio extra (Divulgação/The Game Bakers)
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Paisagens de Cairn são de tirar o fôlego (Divulgação/The Game Bakers)
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Monte Kami é imponente (Divulgação/The Game Bakers)
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Aava está obstinada a cumprir seu objetivo (Divulgação/The Game Bakers)
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Cenários noturnos de Cairn são muito bem feitos (Divulgação/The Game Bakers)
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Há muitos segredos e mistérios no Monte Kami (Divulgação/The Game Bakers)
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Cairn se destaca pelo seu ciclo noturno e diurno (Divulgação/The Game Bakers)

Aava também deve se preocupar com o clima e com o ciclo de dia e noite. Escalar na chuva pode ser difícil e baixará rapidamente seu medidor de temperatura. Pessoalmente, evitei a exploração noturna. Apesar da personagem carregar uma fonte de luz generosa, a visibilidade da montanha e dos pontos de apoio é bem complicada à noite.

Exploração que recompensa

Cairn se destaca bastante por não obrigar o jogador a seguir somente na vertical. A exploração aqui é essencial, tanto para conseguir recursos importantes e evitar dores de cabeça, principalmente com sede e fome, quanto para progredir narrativamente e descobrir mais sobre o Monte Kami.

Até o momento, fui a todos os lugares que podia explorar, e a variedade de surpresas que encontrei é muito recompensadora, considerando que estamos falando de um jogo de escalada. Há desde festas secretas em cavernas e apiários misteriosos, até resquícios de uma civilização montanhosa que vivia do que o monte proporciona. Também esbarramos em outros personagens (ou em seus rastros), o que torna o mundo de Cairn ainda mais vivo. Não é só você e o Monte Kami: há toda uma história ali que, inclusive, pode ajudar bastante na jornada.

É possível sacudir a mochila para conseguir mais espaço (Divulgação/The Game Bakers)

Tudo isso pode ser desfrutado por meio da exploração, que recompensa, e muito, quem sai do caminho convencional e linear. No entanto, para descobrir as maravilhas do mundo, o risco pode ser um pouco alto demais. Alguns desses locais ou objetos estão em posições um tanto complicadas, o que nos faz questionar se realmente vale a pena o esforço.

A cada segundo que passa, nossas barras vão descendo; ou seja, não há muito espaço para hesitações, ainda mais porque nem sempre conseguimos encontrar recursos e alimentos nesses locais. Essa relação entre recompensa e risco pode colocar Aava em apuros, principalmente para os jogadores que buscam uma subida mais tranquila pelo Kami.

Cairn é especial porque se preocupa com os detalhes

O ponto mais forte de Cairn é sua preocupação com os detalhes, principalmente quando falamos de gameplay. Tudo no jogo pode afetar como Aava escala. É o caso, por exemplo, da saúde de seus dedos: é necessário conferir periodicamente se todos eles estão saudáveis.

Caso não estejam, você precisa enfaixar as partes machucadas, afinal, isso prejudica a aderência. Outro ponto importante é conferir do que as paredes são formadas. Algumas podem ser porosas demais, o que impede a colocação de pítons, que, em Cairn, servem como checkpoints rápidos para evitar uma queda trágica.

No acampamento de Aava é possível consertar pítons, cozinhas, enfaixar dedos e dormir (Divulgação/The Game Bakers)

Em muitos jogos, complexidade demais vira um verdadeiro caos. Felizmente, Cairn apresenta todos esses recursos de forma progressiva e num ritmo invejável. Elogiei anteriormente a interface do jogo e volto a repetir que essa é uma de suas melhores partes. Aava tem uma ampla gama de ferramentas, e navegar por esses itens, principalmente no controle, para quem optar pela versão de PlayStation 5, exige uma interface nada menos que excelente.

Escalar montanhas pode ser um pouco duro às vezes

Como todo jogo, Cairn tem alguns impasses que podem atrapalhar um pouco a experiência. Os problemas de colisão são um excelente exemplo disso. De vez em quando, algum membro de Aava acaba entrando em uma parede durante a subida, o que dificulta na percepção de se a personagem está perdendo o equilíbrio ou se está se apoiando em algum lugar seguro.

Aava identifica automaticamente quando chega a um terreno plano, saindo do modo escalada para o modo caminhada, mas nem sempre isso acontece perfeitamente. Já cheguei a algumas partes em que estava numa superfície totalmente plana, e a personagem continuava no modo escalada. Demorava um pouco para ela identificar a transição e dizer “ok, não preciso escalar aqui”.

Isso pode ser complicado, principalmente porque queremos sair o mais rápido possível dessa postura; afinal, tempo é igual a recursos. Outra forma de sair da escalada é saltando da montanha de uma altura razoável. Às vezes, eu estava praticamente no pé de uma montanha e, ao tentar sair com um pulo, a personagem era arremessada para trás com muita força, resultando em uma queda brusca.

Cairn vale a pena?

Para quem busca um jogo profundo e técnico, mas que sabe balancear a diversão e os desafios, Cairn é uma excelente pedida. O título possui uma demo disponível no PC e no PlayStation 5, que oferece o núcleo da experiência — que é justamente controlar os quatro membros de Aava — para ver se você realmente curte o estilo.

As mecânicas de sobrevivência e gestão de recursos podem afastar alguns jogadores e, de fato, esses elementos estão bem presentes em Cairn. Porém, no fim das contas, o jogo da The Game Bakers oferece uma jornada fantástica e brutal, com momentos de calmaria em meio à tempestade. Com certeza, podemos dizer que Cairn é a primeira surpresa indie do ano e transforma escalar em algo incrível no games!

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