Rodar jogos de PC no celular pode destruir o aparelho?

Tecnologia

Na última semana um YouTuber provou que era possível rodar Cyberpunk 2077, um dos jogos mais pesados da indústria gaming, em um smartphone Android. E não apenas fazê-lo funcionar, mas também trazer um desempenho aceitável.

Afinal de contas, o seu velho companheiro de guerras pode conseguir a mesma façanha? Ou títulos como este podem literalmente moer os componentes do seu aparelho? Em um país como o Brasil, no qual os topos de linha custam uma fortuna, essa pode ser a questão de R$ 1 milhão.

A verdade é que o teste permitiu rodar um dos maiores jogos de PC no celular, mas não sem um custo: o dispositivo do youtuber virou uma pequena usina nuclear de tanto calor. Para evitar isso de ocorrer com o seu, nós do Canaltech mostraremos o que dá ou não para fazer de forma segura:


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O que acontece dentro do celular?

Vamos tomar o trabalho do ETA Prime como exemplo para guiar as nossas ideias. Enquanto rodava Cyberpunk 2077, o processador (cérebro do aparelho) aguentou bem o tranco. Ele operou entre 60% e 80%, que é uma margem muito boa e mostrou que não havia uma sobrecarga de suas funções.

A placa gráfica, que gerou todas as imagens, também não sofreu com o teste. O game, considerado um dos mais bonitos, consumiu uma operação entre 50% e 60% da GPU — também em níveis de excelência sem precedentes. O problema são os demais fatores vitais, que apresentaram uma clara carga.

A memória RAM foi a que mais sofreu nesse quesito. O game rodou com 80% da capacidade do componente, o que é um nível acima do recomendável. Entenda que isso deixava apenas 20% para o sistema operacional funcionar, o que pode provocar travamentos nas demais tarefas.

Isso sem mencionar o consumo de bateria, que se sofre sobrecarga pode impactar bastante as operações do celular. Basta imaginar que não era apenas Cyberpunk 2077 que rodava, mas o Wi-Fi, os apps em segundo plano, o próprio sistema operacional e mais simultaneamente. 

Temperatura é a grande vilã

Com tudo isso ao mesmo tempo, o que impactou o smartphone do youtuber foi a sua capacidade térmica. O processador alcançou 100 ºC, o que, em graus comparativos, é como se você estivesse com a mão na água fervente.

E é neste aspecto que começará o seu problema. O silício do chip aguenta esta temperatura, mas a CPU entra em estágio de Thermal Throttling — quase como uma sensação de fraqueza ou desmaio do aparelho — com uma redução brusca de velocidade para não queimar o processador.

Imagem do RedMagic 11 Pro com Cyberpunk
A maioria das CPUs entram em Thermal Throttling em 100 ºC (Imagem: Reprodução/ETA Prime)

A bateria do seu smartphone também entra em risco. Principalmente as de lítio, que odeiam o calor em excesso. Ela exposta a 100 ºC pode degradar a sua química rapidamente e reduzir a vida útil. O resultado disso é um estufamento ou até o vício por ciclos de carga constantes.

A tela do celular também pode sofrer, já que a temperatura extrema pode causar a perda da cola que a prende ao dispositivo ou causar burn-in em displays OLED — sim, aquele mesmo que te cativou a comprar aquele modelo moderno e um pouco mais caro. 

Smartphone “gamer” vs. celular comum

“Ué, mas isso não aconteceu com o youtuber”, de fato, meus caros leitores. No entanto, é importante notar que ele usou um RedMagic 11 Pro, um smartphone projetado para jogos e que possui a ventoinha interna e resfriamento líquido em ação para situações do tipo.

Imagem do RedMagic 11 Pro
O RedMagic 11 Pro foi feito para suportar altas cargas térmicas e ter um desempenho topo de linha (Imagem: Divulgação/RedMagic)

Se, com toda essa “rede”, ele bateu os 100 ºC em Cyberpunk 2077, imagine o que poderia acontecer com um Samsung Galaxy S25, um iPhone 17 ou um Google Pixel mais recente? Os modelos comuns, com dissipação passiva, provavelmente fechariam o jogo sozinhos ou fritariam na sua mão.

Isso quer dizer que o seu celular “padrão” dificilmente rodaria Cyberpunk 2077? Não, significa que isso seria impensável. E, se tentar, é possível que cause danos irreversíveis ao dispositivo com risco de botar a sua própria vida em risco. Não é um “toque”, mas sim um alerta muito sério.

Na menor das hipóteses, os modelos comuns desligam sozinhos para se proteger. Em casos mais extremos, acidentes graves podem acontecer. Em ambos você vai perder — em termos mais claros. Ou seja, “crianças, não tentem isso em casa”, nem sob a supervisão de adultos ou se você for um.

O celular para Cyberpunk 2077

É notável que os testes feitos pelo ETA Prime envolvem um aparelho topo de linha, gamer, que foi lançado recentemente. Com o RedMagic 11 Pro, ele comprovou que a linha que separa os smartphones dos PCs ficou mais tênue e que o teto da emulação se elevou.

No entanto, mesmo que você tenha um modelo 1 ou 2 gerações abaixo, isso não é recomendável. Claro, você pode testar alguns games de PC através do GameHub — assim como o youtuber — mas para a sua própria segurança, não vá em Cyberpunk 2077. Experiências mais leves podem ser mais seguras.

O que ele atingiu foi uma demonstração técnica incrível, porém não recomendável. Não tente fazer isso com o seu celular principal ou com o seu modelo “gamer” de alguns anos atrás. O que vai conseguir é a troca periódica de bateria ou aumentar as chances de provocar acidentes. 

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