Climão no Xbox: funcionários dizem que era “difícil trabalhar” com Sarah Bond

Tecnologia

A aposentadoria de Phil Spencer e a saída de Sarah Bond da divisão de games do Xbox pegaram todos de surpresa na última sexta-feira (20). Asha Sharma agora está no comando da divisão de games da Microsoft. No entanto, a mudança no quadro da liderança do Xbox pode ter sido mais conturbada do que as pessoas pensavam.

O jornalista do The Verge, Tom Warren, conversou com diversos funcionários e ex-funcionários da Microsoft, que afirmaram que a posição de Bond no Xbox era instável. A executiva foi promovida a presidente do Xbox em outubro de 2023, pouco tempo depois da companhia adquirir a Activision Blizzard numa negociação bilionária de US$ 68,7 bilhões.

Sarah Bond teria sido uma peça-chave para que o acordo passasse pelos órgãos reguladores, que na época resistiram ao fechamento da compra, em especial o Competition and Markets Authority (CMA) e a Federal Trade Commission (FTC). Nesse meio tempo, Bond começou a se tornar o rosto do Xbox.


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Pouco tempo depois da promoção da executiva, alguns membros-chave do Xbox deixaram a companhia. Esse é o caso de Kareem Choudhry, chefe que liderou a criação do Xbox Cloud Gaming e do programa de retrocompatibilidade e que comandava “uma equipe de inovadores que explora e impulsiona a Inteligência Artificial nos jogos”. Choudhry deixou a empresa seis meses depois de Bond ser promovida, após 26 anos na Microsoft.

Relatório do The Verge põe campanha “Isso é um Xbox” na conta de Sarah Bond (Divulgação/Microsoft)

Logo depois, o ex-diretor de marketing, Jerret West, também deu adeus ao Xbox, o que deixou a equipe de marketing se reportando diretamente a Sarah Bond. A saída de West foi seguida pela confusa e polêmica campanha que tirava o foco do console Xbox e o colocava nos serviços. Algum tempo depois, o fatídico slogan “Isso é um Xbox” foi lançado, incluindo comerciais que colocavam os consoles da marca no mesmo patamar de celulares, tablets e Smart TVs com Xbox Cloud Gaming.

Segundo Tom Warren, a campanha de marketing não apenas foi confusa, como também “ofendeu internamente muitos funcionários”. Tudo isso levou a marca à estratégia multiplataforma e de “Xbox em todo lugar”, não só piorando a imagem pública da divisão perante a comunidade, mas gerando quedas na receita de hardware do console por três anos fiscais. O jornalista afirma que o cenário pode se manter o mesmo em 2026, apesar da line-up estelar de jogos.

Funcionários aliviados com a saída de Sarah Bond

Uma das maiores surpresas sobre o anúncio da mudança na direção do Xbox foi a omissão do nome de Sarah Bond na mensagem oficial da Microsoft. Satya Nadella, Matt Booty, Asha Sharma e Phil Spencer tiveram suas mensagens compartilhadas no blog da companhia. Todos os executivos rasgaram elogios aos 12 anos de Spencer à frente do Xbox, enquanto apenas o último citou o nome da executiva durante a despedida.

O The Verge revela que foi decisão da Microsoft de promover Sharma em vez de Bond. A maioria dos funcionários do Xbox (atuais e antigos) com quem Warren conversou se mostrou aliviada com a saída da executiva. Segundo fontes do jornalista, era difícil trabalhar com Sarah Bond, pois a ex-presidente do Xbox construiu uma estrutura que não permitia questionamentos ou linhas diferentes de sua visão. Apesar das críticas, Bond foi amplamente elogiada por sua capacidade de firmar parcerias com outras empresas e desenvolvedores.

“Pelo que entendi, a estratégia de Bond já estava falhando internamente e foi questionada diversas vezes. Ela tentou priorizar o mobile e a nuvem em vez do console para alcançar potencialmente milhões a mais de clientes, mas o resultado foi um caso clássico de correr atrás dos clientes de amanhã negligenciando os de hoje”, contou Tom Warren.

A Microsoft pretendia anunciar as mudanças na liderança do Xbox nesta segunda-feira (23). Segundo o relatório, a companhia foi obrigada a antecipar o anúncio, pois a informação começou a vazar e a IGN planejava publicar uma matéria, conforme fontes do The Verge. Equipes internas do Xbox acabaram descobrindo sobre a saída de Bond e Spencer pela mídia, e não por comunicados internos.

Phil Spencer deixou a Microsoft após 38 anos na empresa (Divulgação/Microsoft)

Esse anúncio também pegou a equipe por trás das redes sociais de Sarah Bond de surpresa. Pouco antes da confirmação de sua demissão, o perfil oficial da executiva no LinkedIn lançou uma publicação pedindo feedback sobre recursos de acessibilidade do Xbox. Bond se pronunciou posteriormente sobre a saída e não deu muitos detalhes sobre a situação, além de afirmar que “nosso próximo console está bem encaminhado”.

Grande reset na estratégia do Xbox

Tom Warren também indica que, com a saída de Phil Spencer, a Microsoft estuda apertar o “botão de reiniciar” na estratégia de Sarah Bond, em vez de seguir pelo mesmo caminho. Isso pode significar muitas coisas, desde voltar para a estratégia centrada no console até o fim da pegada multiplataforma do Xbox.

Asha Sharma assumiu o cargo afirmando que uma de suas diretrizes será “o retorno do Xbox”. No entanto, a nomeação da nova CEO tem preocupado tanto os jogadores quanto os funcionários ouvidos pelo The Verge por conta do background da executiva em Inteligência Artificial na Microsoft e pela sua quase inexistente experiência com games. Alguns usuários até acusaram Sharma de usar o ChatGPT para responder à comunidade.

Asha Sharma e Matt Booty irão liderar o Xbox a partir de agora (Divulgação/Microsoft)

Por outro lado, a nova líder da divisão de games da Microsoft afirmou em comunicado: “À medida que a monetização e a IA evoluem e influenciam esse futuro, não buscaremos eficiência a curto prazo nem inundaremos nosso ecossistema com lixo de IA sem alma”. Sharma reforçou que “os jogos são e sempre serão arte, criados por humanos, utilizando a tecnologia mais inovadora fornecida por nós”.

Outro ponto importante levantado por Warren é que a Microsoft parece se preocupar em perder o Xbox, visto que é uma de suas poucas marcas bem-sucedidas voltadas ao consumidor final.

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